Imagem: IFAC

“[…] To ensure that professional accountants are effective, they need to broaden their knowledge base from the application focus that they may traditionally have had, to the understanding of how technology and data create value for organisations. […]”
Obra: The digital accountant: Digital skills in a transformed world. 3.4. Impact of digital skills on those ‘in-pratice’. ACCA, 2020, London. Relatório. Association of Chartered Certified Accountants.
São Paulo, outubro de 2014 – Em um evento no Matsubara Hotel, sobre contencioso tributário, com mais de 300 participantes e experts em riscos fiscais, foi por uma brincadeira de mau gosto, em forma xenofóbica [533] que começamos a conversar no intervalo sobre um tema que não esperava ouvir de um contador, pelo menos quanto à lucidez, coisa rara entre influenciadores no meio contábil.
A brincadeira preconceituosa (acredito que ele dará risos ao ler este registro aqui) não foi capaz de evitar que eu passasse o resto do evento conversando com uma figura que se revelou tão espirituosa. Um contador dedicado à consultoria para uma grande indústria de matriz alemã com uma unidade em Santa Catarina. Ele estava apreensivo com o que conseguiu entender ao pensar na missão de elaborar um resumo para ser apresentado a contadores da unidade local e da matriz.
Conversávamos sobre a insegurança jurídica no Brasil, com ênfase no âmbito do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), em comparação com o sistema alemão, e então adentramos no tema do manicômio tributário tupiniquim, quando ele saiu com um comentário insólito:
– Acredito que em dez anos a maioria desses contadores aqui estará em apuros para permanecer no mercado na forma que pensam contabilidade hoje. Não fazem a menor ideia do abismo para onde estão sendo empurrados pelo fisco e o pior, comemoram isso como valorização da profissão, tudo com a cumplicidade dos conselhos de contabilidade – referiu-se a “maioria” a qual naquele auditório era composta por gestores de escritórios contábeis.
Entre 2013 e 2015 participei de vários eventos desta natureza e foi a primeira vez que pude ouvir um comentário tão lúcido sobre a realidade, advindo de um contador. Nas outras ocasiões, qualquer análise nesse sentido era evitada, quando não silenciada. O meu interlocutor ao ouvir meu comentário sobre o tom cirúrgico de sua fala, passou a falar sobre contadores na Europa, com destaque para o que vem acontecendo no Reino Unido, especialmente em Londres, onde há uma cadeia de inovações tecnológicas sob uma realidade bem diferente em relação ao que acontece com contadores brasileiros:
– Aqui no Brasil contadores estão alienados pela Receita Federal e os de fora, que conhecem bem a realidade daqui, parecem olhar para isso com medo que aconteça também com eles – completou.
Naquele ano passávamos pela consolidação do SPED e início do eSocial, com palestras e treinamentos que infantilizavam um público já bastante áulico, doutrinado, com ideias rasas sobre “empreendedorismo tributário” e formação de “especialistas” em bugigangas digitais do fisco. Comentei que a alienação a qual ele se referia não era coisa recente; a tinha percebido no final dos anos 1990 quando as primeiras escriturações foram lançadas, e muitos profissionais foram se afastando da escrituração contábil, também por força da legislação de 1996 que instituiu o primeiro Simples (Federal). O Sped e o eSocial representavam duas coisas: consequências do Estado que temos e um capítulo de “avanços” de um processo de degeneração profissional contínuo que se estabeleceu no meio contábil.
Seis anos se passaram após aquela surpreendente conversa e, durante a pandemia, participei de um evento internacional no Zoom que analisou este relatório da entidade britânica Association of Chartered Certified Accountants. A presidente Helen Brand, na apresentação (trecho, p. 4), aborda uma questão que entendi ser essencial para lidar com o processo de transformação da profissão contábil: “Para garantir a eficácia dos profissionais de contabilidade, será necessário que eles ampliem sua base de conhecimento, deixando de se concentrar apenas na aplicação prática, o que fazem tradicionalmente, e passando a compreender como a tecnologia e os dados geram valor para as organizações”.
O contador hodierno, bem adaptado, penso, seria o profissional capaz de lidar com a ciência de dados orientada para atender a um nível de contabilidade cada vez mais intenso, volumoso e célere. Isso implica em práticas que substituem o trabalho humano repetitivo por robôs e aplicações com a dita “Inteligência Artificial”. Penso ainda em relação a esta demanda, o que se afirma no relatório: “na medida em que os governos digitalizam cada vez mais a coleta de dados, incluindo registros fiscais, os contadores que lidam com este operacional, na prática, precisam se tornar mais alfabetizados em dados, especialmente no setor de pequenas e médias empresas, para terem condições de apoiarem seus clientes” (p. 33).
Essa alfabetização digital de contadores pelo mundo reflete muito mais o avanço dos aparatos estatais do que a dinâmica da profissão e o avanço da ciência contábil, no entanto, no Brasil, o problema se tornou crônico com a burocracia canibalizando a contabilidade, tendo um fim em si mesma. Quando se fala em “contabilidade digital”, percebo que o entendimento sobre o termo se tornou um tanto pejorativo, pois normalmente se resume a rotinas da burocracia fiscal em forma de commodities que atendem apenas ao fisco, com a prática de preços que transmitem a ideia da atividade associada ao “contábil’, como coisa banal, pelo menos na concepção ao grande público, não tendo qualquer utilidade gerencial para clientes, tampouco indica alguma produção de alta relevância, o que compromete um entendimento mais adequado da “alfabetização digital”, abordada neste material da ACCA, como processo inevitável de transformação da profissão contábil.
Talvez, para contadores europeus e asiáticos, ambientados em algo bem menos tóxico em termos de hiperburocracia, a fala na apresentação da presidente Brand faça muito sentido mas, infelizmente, o mesmo não se aplique entre muitos profissionais no Brasil que estão cada vez mais presos a uma agenda de obrigações do fisco dentro de uma estrutura de Estado que os torna subservientes e sufoca seus clientes, a compor um ambiente que se tornou quase que totalmente hostil à preservação de um mínimo habitat contábil no universo de micro e pequenas empresas.
A contabilidade se tornou um objeto estranho na vida de muitos profissionais com CRC. Praticamente sumiu da vida de empresas e organizações que formam uma ampla maioria na cadeia produtiva, embora escritórios e profissionais façam propaganda em redes sociais sugerindo que realizam o contrário. Hoje muitos contadores parecem frustrados ao pensarem que não passam de terceirizados a serviço dos fiscos, sem qualquer vínculo e vivência profunda com a Contabilidade. Então, pensei, enquanto a alfabetização digital se apresenta como uma exigência fundamental, o que será da profissão contábil neste processo específico no Brasil, onde muitos se encontram afastados da contabilidade; será que entenderão a mudança profunda que corre na profissão?
Encerro com a fala de Charles Marful (p. 47), diretor de Talentos (Prática de Auditoria), EY, Canadá:
“Se a profissão contábil se tornar altamente alfabetizada digitalmente, então o contador impulsionará a agenda de negócios habilitada por tecnologia. Caso contrário, os Diretores de Informática (CIOs) o farão.”
533. Em um pequeno grupo formado por contadores e advogados, um dos componentes comentou que “a palestra do tributarista cearense só não foi perfeita por causa do sotaque”. Um tempo depois das risadas, quando falei ao interlocutor sobre minha origem nordestina, constrangido, ele me pediu desculpas. Pensei, “menos mal” e lhe disse: “tudo bem”. Aproveitei para iniciar uma conversa que se tornou uma das mais interessantes que tive sobre contabilidade e contadores no Brasil.