Imagem: augustinus.it

“Assim falava e chorava oprimido pela mais amarga dor de meu coração. Mas eis que, de repente […]”
Obra: Confissões. Livro Oitavo. Capítulo XII. A conversão. Martin Claret, 2002, São Paulo. Tradução de Alex Marins. De Aurelius Augustinus Hipponensis (Aurélio Agostinho de Hipona), Santo Agostinho de Hipona (Norte da África/Tagaste, 354-430).
Há quem esteja tão preso ao passado, que sequer consegue pensar nele. Assim se vive em uma prisão por medo de revisitá-lo, por ressentimentos de conflitos não resolvidos, por dores negligenciadas, por fingimento que “tudo está bem” atravessando o tempo a corroer o espírito.
O passado está dentro de mim, queira ou não. O que me resta é não torná-lo permanente no significado original que me domine, conservando o sofrimento por sentimentos negativos que não foram superados.
Era agosto de 2002 quando li pela primeira vez este trecho (p. 185), que versa sobre a conversão de Santo Agostinho (pp. 184-186). A edição popular da Martin Claret ficou toda rabiscada, grifada, coisa que me envergonho, com frases e aforismos que me vieram à época.
Logo me identifiquei com as Confissões porque envolve o tema da revisitação do passado, o que fazia à época parte do que me envolvia com a psicanálise, e os detalhes com que Agostinho conta sobre sua vida de adolescente e jovem, eram-me familiares, muito próximos.
O passado fica no passado quando o desconforto com algumas recordações, que alguns chamariam de “traumas”, não mais determinam as metas existenciais. Quando recordá-lo deixa de ser um martírio e passar a servir de inspiração na medida de uma maturidade para viver o aqui e o agora. Foi esse espírito desbravador de memórias, tão marcante em Agostinho, que se tornou mais uma fonte de inspiração quando penso sobre o que acontece quando se liberta do passado e consolida a mudança de si. Estar livre dos fantasmas não é simplesmente evitá-lo, mas passar por ele, saudá-lo com um sorriso de gratidão a Deus e, sob uma nova mentalidade, dizer: aqui estou, livre do que passou, vivo, no aqui e agora.
O jovem Agostinho estava em um conflito “no fundo do espírito” (Capítulo XI, p. 184) entre um passado de continência e uma reflexão intensa sobre a santidade que provocava “enorme tormenta” e “copiosa torrente de lágrimas” (p. 184). Alípio, seu velho amigo, olhava distante. No campo de batalha do coração, Agostinho refletia sobre recordações que não lhe davam orgulho enquanto tentavam lhe seduzir novamente, e pensava no que a experiência da fé em Cristo começava a significar no seu aqui e agora; “chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração”, afirma (p. 185).
O choro de Agostinho passou a ser acompanhado por uma repentina voz de menino ou menina que ouviu da casa vizinha que cantava e repetia: “Toma e lê, toma e lê”. Tentava se recordar se era alguma brincadeira infantil, quando então entendeu que deveria abrir o livro, e ao tornar para Alípio, assim o fez quando caiu em seus olhos Romanos 13.13.
Eis o sinal que precisava. “Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas da dúvida”, então foi contar à sua mãe, Santa Mônica, a experiência (p. 186).
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