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Nietzsche

“[…] Deus está morto. Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar a nós, assassinos entre os assassinos? […]”

Obra: A Gaia Ciência. Livro III. Aforismo 125. O homem louco. Cia das Letras, 2001, São Paulo. Tradução, de Paulo César de Souza. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

Embora o marrento filósofo do martelo tenha detonado o cristianismo, especialmente, não é simples alusão ao ateísmo a famosa afirmação “Deus está morto!” no aforismo 125 de Gaia Ciência, ensinou-me o meu mentor, professor ZW, lá pelos idos de 1995 em uma marcante aula de filosofia; é uma constatação do desmoronamento dos valores absolutos na modernidade, o que entendo ser a exclusão de Deus na vida prática, mas sem negá-lo categoricamente.

O receio de Nietzsche é que, uma vez tendo matado Deus, o homem acabe em um vazio onde não há o que tenha valor ou sentido, o niilismo, anulando propósitos, problema que se conecta ao conceito da transmutação de todos os valores e ao Übermensch, o além do-homem. Contudo, destaco o desfecho do aforismo (p. 148), por ser bem sugestivo a uma experiência pessoal:

Conta-se também que no mesmo dia, o homem louco irrompeu em várias igrejas e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam Deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, senão os mausoléus e túmulos de Deus?”

Uma visão desse colapso e sepultamento se deu no dia em que nasceu o pastor Abdoral [685]. Vi por releitura um “Deus está morto!” :

Enquanto dirigia, pensava na sentença de Nietzsche e no que ouvira de pastores que mais pareciam homens de negócios sedentos por dízimos, crescimento de arrecadação, comparações de benefícios e salários, todos devotados a resultados financeiros. Se o pastor Leonardo jamais seria uma realidade desde o primeiro dia de aula em 2003, quando respondi a um professor porque estava ali, o pastor Abdoral surgiu como um espírito crítico de um heterônimo de pensamentos tão distintos e provocantes, face ao criticismo inevitável por sua personalidade não corporativista.

Sábado passado tive outra releitura, tentando no início da noite encontrar um lugar em Vitória de Santo Antão para jantar, quando eu, minha esposa e minha filha mais nova nos deparamos com uma bizarra manifestação política que transformou o centro da cidade em uma ilustração do Segundo Círculo do Inferno (o da Luxúria) na Divina Comédia de Dante Alighieri. Caminhar pela Matriz se tornou uma atividade extremamente tóxica em vários sentidos, sobretudo pelo ensurdecedor barulho de sons propagados em carros de apoiadores que somente foram superados pela vulgaridade das músicas que mais pareciam de baile funk em meio a uma combinação de bebida alcoólica e direção. Um pouco antes, seguidores do candidato adversário organizaram na praça um grito de repúdio digno do palavreado que pode ser escutado em torcidas organizadas das mais perigosas do submundo do futebol de várzea.

No entanto, o que mais me deixou perplexo foi ver crianças, até mesmo na primeira infância, participando do ato, com seus responsáveis as ensinando que a apologia do ódio ao adversário e a brutal violação do sossego alheio (pensei no dano provocado a quem precisava de repouso em um bairro cheio de idosos) são atos de indivíduos “civilizados”, a serem praticados com aquela disposição apelativa em nome do “amor à pátria” entre os que se dizem “conservadores nos costumes”, os tais defensores da “família tradicional” que gostam de denunciar um mundo degenerado por quem pensa ideologicamente de forma diversa, muitos sendo religiosos que acreditam ter a cura enquanto o poluem descarregando suas mazelas e seus recalques fantasiados como “pessoas de bem”.

Quando finalmente encontramos um restaurante, ainda sob o efeito da libertinagem disfarçada de “liberdade” democrática, as ondas do impressionante barulho, no furor daquela linguagem violenta, ainda penetravam no recinto abalando a ordem, fazendo prevalecer um delírio coletivo que me deixou ainda mais pensativo: estava diante de um manicômio a céu aberto. Então, pensei novamente no “Deus está morto!” de Nietzsche, e comentei com a minha esposa, acrescentando o que imaginei em seguida ao notar que muitas daquelas pessoas estarão, no dia seguinte, em um tipo de manifestação ao divino onde supostamente lhe são prestados louvores em uma desconcertante dualidade de valores.

685. 05/01/2024 21h58

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