Imagem: Letras UFRJ

Senhoria Clairon como Medeia (1759),
de Carle van Loo (1705-1765)

“Em nossa cultura, confunde-se frequentemente autonomia com um de seus graus precedentes, a autonomia e independência externa […]”

Obra: Medeia: A Redenção do Feminino Sombrio como Símbolo de Dignidade e Sabedoria. Terceira Parte: O espelho escuro. Heroísmo desesperado. Cultrix, 2017, São Paulo. Tradução de Margit Martincic e Daniel Camarinha da Silva. De Olga Rinne (1946-2011).

Para diferenciar a autonomia da independência externa, Olga Rinne menciona a definição do psicólogo e psicanalista Arno Gruen sobre a autonomia ser o “estado de integração, no qual uma pessoa está em completa concordância com os seus próprios sentimentos e necessidades” (p. 131). Penso aqui em uma pessoa poderosa, com relativo prestígio e muito dinheiro, neste sentido gozando de autonomia, porém, carente por outro lado quando emocionalmente pobre, instável e sem harmonia em relação ao que entende sobre suas reais necessidades.

A consciência da própria força – penso sobre o que argumenta a autora – é um grau de autonomia inferior diante da “admissão das próprias necessidades de aconchego, agregação e amor, e da própria fraqueza e dependência” (pp. 131-132). Há muitas questões importantes nesta frase. Reconhecer a necessidade de aconchego, suporte, pertencimento e afeto é algo que compõe um espírito de autonomia em uma fina ironia, pois não me surpreende que muitas pessoas que se sentem autônomas por conta do estágio de certo poder temporal que possuem, podem subestimar carências em si mesmas que são normais em todo ser humano. Esse tipo de autonomia é frágil demais por menosprezar a verdade que as melhores coisas da vida residem onde o dinheiro não pode comprar, questão que se completa com o final da afirmação quanto à admissão da própria fraqueza.

O texto me fez pensar também no caso do relacionamento aparentemente afetivo e que na verdade se rege por mero interesse material onde a mulher decide por um caminho que diria, pragmático, concentrando sua ambição na influência sobre o homem que lhe dá segurança e estabilidade, de maneira que passa a realizar um papel um tanto superestimado como se fosse regente do seu destino, exaltando-o. Se Medeia no mito faz de Jasão o seu herói, muitas mulheres da modernidade escolhem seus tutores em uma relação que não importa a superficialidade do afeto, pois enquanto muito bem maquiada para “amá-lo”, estabelece um relacionamento que não resiste ao prazo de validade que se atrela à capacidade de seu homem lhes proporcionar fidelidade na troca de interesses e, sobretudo, segurança emocional (p. 133), algo que muitas vezes se associa, penso, de forma objetiva ao conforto material.

Quando assim transformada em objeto, penso na sociedade machista onde me situo, a mulher normalmente vê no parceiro um “porto seguro”, aparentemente gozando de um bem estar que compõe sua confusão com autonomia, enquanto tratada como um “troféu” pela figura do homem viciado no próprio poder que “destrói a alma” (p. 132), como bem lembra a autora citando novamente Arno Gruen. Essa mulher-propriedade vive sob uma imensa carência de afeto que só pode vir pela autonomia superior. Na falta de aconchego legitimo em detrimento da fantasia de grandeza, ela interage por “secretas reinvindicações de superioridade”, diria, não tão secretas assim, pois o tal do homem poderoso e desejado a enxerga como bem, não raramente se cobrindo de um rótulo que faz questão de exibir como o desfrutar de uma grife para poucos que podem adquirir e trocar quando bem entenderem.

A sua “posse” sob glamour recebe investimentos de acordo com expectativas de retorno do seu investidor-macho, entre os estéticos e os acessórios que artificializam sua aparência sexy, mas caso o seu então preciso objeto-de-desejo perca a capacidade de encanto, refiro-me aos olhos não apenas do espírito de seu possuidor, mas, sobretudo, de outros que a desejam e excitam sua vaidade, esse mesmo homem não hesitará em trocá-la, deixando exposta a ilusão da autonomia dessa mulher que outrora se dedicava. Por outro lado, a mulher “empoderada”, penso, pode representar outro aspecto dessa ilusão quando deposita suas expectativas tão-somente para se afirmar na sociedade mediante conquistas que não atendem suas verdadeiras necessidades.

A carência de autonomia, entre pessoas conscientes da própria força, seja o macho-possuidor, a mulher-investida ou a empoderada, pode ser observada no tipo que se desmonta emocionalmente quando percebe que está diante de algo que consegue resistir contrariando o poder que dispõe. Um “não”, por mais simples que seja, pode ser perturbador para quem acredita que pode submeter tudo e todos aos próprios caprichos apenas contando consigo mesmo. Resistir a quem se julga “importante demais” pode ser então uma forma de conferir como essa autonomia inferior se encerra em uma ilusão e isso ocorre quando o lado contrariado se permite a uma reação desarmônica, deselegante, desajustada ou até mesmo galgada em níveis mais agressivos de violência.

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