Imagem: London Speaker Bureau

“O golpe de mestre que desvendou a renda das nuvens para Steve Jobs foi sua ideia radical de convidar ‘desenvolvedores terceiros’ […]”
Obra: Tecnofeudalismo. O que matou o capitalismo. 5. O que há em uma palavra? Planeta do Brasil, 2025, São Paulo. Tradução de Érika Nogueira Vieira. De Ioannis Georgiou “Yanis” Varoufakis (Grécia/Falero, 1961).
Mais uma obra para diversos registros.
Antes, pensei em A História da Riqueza do Homem, onde Leo Huberman traça um roteiro que começa pelo feudalismo (Parte I) passa para o capitalismo (Parte II) e chega ao… veladamente, socialismo de Marx que seria “inevitável” e “sem utopia” [591] .
Na livraria ontem diante da tese apresentada neste livro do professor Varoufakis, pensei no roteiro que versa sobre o feudalismo, analisa o que foi cunhado por “capitalismo” e então apresenta o que posso chamar de “mutação” para um “capitalismo feudal” ou, conforme sua definição, “feudocapitalismo”. porém, não se trata de um determinismo histórico, à mon avis, mas um fenômeno de um novo paradigma de acumulação de riqueza.
Ainda na livraria, fui consumindo as páginas com argumentos que versam acerca desse novo poder emergente em função do velho conceito de feudo. O “feudocapitalismo” funciona aplicado a uma estrutura que conserva um conhecido e velho problema dos debates econômicos e sociais, desta vez em escala muito maior: o da concentração de riqueza agora mais incrementada com uma organização capaz de controlar a extração de renda da força de trabalho. Esse poder que não se baseia no método de lucro tradicional, não depende da relação entre margem em torno de compra e venda, está nas mãos de pouquíssimos “senhores feudais” da modernidade que atuam na “nuvem” da internet. Os “feudos” da atualidade pertencem a magnatas entranhados no mundo das TIs e das Big Techs.
O termo que o autor encontrou para definir esse fenômeno saído do capitalismo hodierno, suscita então um problema sobre o que está descaracterizando o conceito de lucro tradicional em favor do modelo de “extração de renda”. O “golpe de mestre” para destravar esse processo teria sido dado por Steve Jobs, quando abriu sua plataforma para “desenvolvedores terceiros” produzirem aplicativos a serem distribuídos na Apple Store, criando para si um “exército de trabalhadores não remunerados e capitalistas vassalos” que produziram para usuários de IPhones em uma magnitude que os engenheiros da Apple não teriam condições de oferecer. Ao ser a pioneira, a Apple ocupou bastante os produtores de maneira que não se sentiram atraídos por concorrentes enquanto passou a cobrar 30%, da renda auferida pelos desenvolvedores atrelados à sua plataforma. E assim o modelo de Steve Jobs se consolidou como um formador de “senhor feudal” que converte seus colaboradores liberais em vassalos das nuvens (pp. 120-121).
O Google foi outra corporação que se moldou nesse “feudocapitalismo” em franca ascensão na internet. Ao desenvolver o Android, conseguiu atender a uma vasta demanda fora do universo do IPhone. O Google Play seria então a consolidação de outro feudo digital (p. 121). Pensei finalmente o quanto o conceito de feudo na internet é real, e faz parte de nossa vida, desde os criadores de conteúdo até os desenvolvedores de soluções em um modelo de extração ou comissionamento que torna todos os produtores, de fato, vassalos, de grandes arranjos ou plataformas na internet.
591. 25/04/2022 23h08
3 Replies to “09/06/2026 22h00 Tecnofeudalismo. O que matou o capitalismo. 5. O que há em uma palavra?”