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Marjane Satrapi

“PARA ME DESPERTAR, MEUS PAIS ME DERAM UNS LIVROS.”

Obra: Persépolis. A Bicicleta. Cia das Letras, 2007, São Paulo. Tradução de Paulo Werneck. De Marjane Ebrahimi (Irã/Resht, 1969, 2026).

A menina que revolucionaria os quadrinhos tinha uma fé que se nutria por dúvidas. Lembro-me quando iniciei minha caminhada pela fé, como a dúvida se tornou minha fiel companheira. O que eu pensava ser um contrassenso era apenas fruto de minhas sondagens em busca por algo que a imaturidade naturalmente dificultava. Depois ouvi de um professor que se tornaria meu mentor: sem fé é impossível agradar a Deus e sem dúvida não se pode amadurecer a fé.

E então me entreguei totalmente ao amor da fé com a dúvida.

Em 1980, no ano seguinte em que eclodiu a revolução islâmica iraniana, a menina foi obrigada a usar véu na escola e a ficar separada dos meninos de classe. O mundo sem cores pintado pela mente religiosa invadiu sua vida, mas ela não era uma menina comum…

Quando crescer, ela queria ser profeta, decisão que compartilhava somente com Deus. Um pouco adiante decidiu dar um pausa nos planos proféticos com o divino para fazer algo pela revolução que organizou no seu quintal, a mesma que lhe obrigaria a usar véu e a ceifava de outras coisas:

A REVOLUÇÃO É QUE
NEM UMA BICICLETА.
SE AS RODAS
NÃO GIRAM, ELA CAI.

Quantas vezes ouvi coisas parecidas em diretórios com jovens verdinhos que não sabiam as razões do que estava falando e fazendo, tão crentes fundamentalistas quanto os que vi em igrejas que conheceria um pouco mais adiante.

E eis que a menina ganhou dos pais “modernos e avançados”, livros para se despertar… Então ela ficou sabendo das crianças mortas da Palestina e do Vietnã… de Fidel… Ela se moldou pelo espírito sedutor que envolve a infância das ideias.

Vivi uma fase, da adolescência até o início da juventude, em que meu ardente desejo de mudança me trouxe a confusão de ideias autoritárias com propósitos pela liberdade. Ao me ver no mesmo processo de descobertas da autora, alegrei-me na dor de meus equívocos, com crenças que nada tinham a ver com a essência que me envolvia e não entendia pela carência dos anos. No caso autora, nada como quatro anos na Europa para lhe causar feridas que enlevam o juízo. No meu caso, enganos em novos enganos que me livraram de outros ainda piores. A vida é uma sucessão de erros…

Quando a menina retornou, o Irã era outro país e entre frustrações afetivas, desencontros e conflitos, suas ideias cresceram, saíram do jardim da infância e alcançaram a medida de uma jovem que se tornou uma mulher livre, forte, que não cabia mais no país que um dia sonhou e se tornou pela revolução, um lugar impossível; deixá-lo fazia parte de sua ordem natural.

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