Imagem: Casa Fernando Pessoa

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Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
Londres, 1914 — Junho.
Obra: Ode Triunfal. Em Orpheu N.1, Lisboa Jan-Mar. 1915 e Álvaro de Campos – Livro de Versos. Estampa, 1993, Lisboa. De Álvaro de Campos, heterônimo por Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).
O passado está sempre no presente na metamorfose com a perenidade da essência.
Olhei para o tecnológico que pude conhecer, enquanto caminhava com Álvaro de Campos, e pensei sobre o existir para dentro, em meio ao poder e ao deslumbre inadvertido, e se giro, rodeio, engenho-me em coisas que me engatam sem que eu as perceba no instante em que acontecem, na alienante correria do cotidiano.
Quando menino fiquei fascinado pela ideia de escrever códigos para programar o que me fora apresentado como “computador”, mas logo cedo, além desse fascínio, precisei aprender a fazer escolhas éticas quando vi que o quanto essa mesma expertise maravilhosa que tanto almejei, também serve para fomentar transtornos mentais, isolamento social, além do espectro sociopata que pode dominar a psique humana, o que me fez pensar nas partidas dobradas, ‘‘uma das mais belas invenções da mente humana”, dissera Goethe [585], que tanto me fascinam desde o início da adolescência e torna possível a economia da mensuração patrimonial pela cooperação social, mas que são as mesmas utilizadas em fraudes bilionárias que castigam severamente a sociedade.
Tudo o que é humano se sujeita aos contrários e não está livre da subjetividade… O que me resta é buscar uma sabedoria para enfrentar as escolhas.
E a assim dita “inteligência artificial” que proporciona, de iletrados a eruditos, benefícios enormes na celeridade de aprimoramento de conteúdo (o que diria hoje o poeta?), além do acesso ao conhecimento, para galgar com tudo por cima de tudo, é a mesma que está cauterizando a mente intelectual de multidões ao induzir que uma coisa sem humanidade pode, de forma prerrogativa, “ler”, “pensar”, “escrever”, “aconselhar” e “decidir” no lugar de quem a ela recorre, abolindo o que há de mais belo em cada membro da nossa espécie.
Enquanto tenta me arrastar, confesso ao meu amigo heterônimo, que não quero ser nada além do que o espírito de humanidade possa me oferecer, quando então pensei em Carlitos no primeiro filme que entrou para o meu rol das obras inesquecíveis, Tempos Modernos:
Eia! Amo todos os dias a arte de me desvencilhar de automatismos e heurísticas que seduzem meu espírito, coisas ardilosamente fantasiadas de “progresso” e “evolução”.
Amo não ser ser eu toda a gente e toda a parte!
585. 30/07/2022 18h20
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