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“O grande desafio clínico de nossos dias é transformar o sofrimento psíquico que caracteriza o mundo contemporâneo em um vazio positivo, uma falta constitutiva do existir humano, com abertura para a criatividade. Hoje, nosso grande desafio é levar o sujeito que sofre e que nos procura esmagado pelo excesso de uma dor inominável, a inventar uma nova maneira de ser, a partir das experiências vividas nas situações que marcam a sua trajetória no mundo.”
Obra: A dor física e psíquica na metapsicologia freudiana. O desafio da dor à Clínica contemporânea. Revista Mal-estar E Subjetividade, vol. XI, núm. 2, junho, 2011, pp. 591-621. Universidade de Fortaleza
Fortaleza, Brasil. De Zeferino de Jesus Barbosa Rocha (Brasil/Pernambuco/Escada, 1928-2016).
Dr. Zeferino foi um gentleman. Acadêmico e clínico internacionalmente experimentado. O “professor Zef” foi da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, ao Laboratoire de Psychologie Clinique da Université René Descartes em Paris, passando como professor convidado da Sorbone. Humilde, paciente (sobretudo com um certo jovem arrogante), de sabedoria inspiradora, oratória refinada, generosidade contagiante, tudo isso combinado em um psiquiatra e psicólogo com um conhecimento profundo da obra freudiana.
No trecho (p. 616), uma síntese de sua visão sobre o desafio do sofrimento para a clínica contemporânea, cuja chave está no “inventar uma nova maneira de ser” ou, como in loco tive o privilégio de escutar o que indica o mestre neste texto: “dar sentido à dor do não sentido”, para que seja possível se desvencilhar do desespero. Pensei è época: um visão inspiradora a quem olhava apenas o determinismo de Freud.
Caríssima é a “dor do retorno”, estou cá com meus botões, da nostalgia da infância, naquela tal da “angústia da ausência”. Penso na fase de criança e em Freud cuja dor é o sentimento diante de hilflos, no se sentir desamparada, e a angústia é a reação na percepção desse perigo (p. 611). Quantas vezes as confundi e me sabotei pela “dor do retorno” experimentada em uma distorção cognitiva? Aprender a lidar com as próprias distorções é o caminho para vencer a angústia. Já o sofrimento tem seus lados, e isso levei um bom tempo para entender: o primeiro, está no dissabor da “contingência dos limites”, quando o vazio, o sentir-se diminuto, esgotado, e a morte se evidenciam (penso aqui, sobre “morte”, algo que vai muito além da obviedade do termo, diria morte de ciclos, crenças, na forma de desilusões, perdas irreparáveis); o segundo está na abertura do mesmo sofrimento “para o extraordinário milagre da vida” (p. 617). O sofrimento ensina (longe de ser apenas um clichê) e, concomitantemente, é uma experiência onde se pode encontrar disposição a uma nova forma de conceber a própria existência, um novo olhar possível pela psicoterapia como reinvenção de si mesmo, penso.
Muito mais do que ter sensibilidade para identificar omissões verbais, onde o não dito que diz mais do que o dito, o doutor Zeferino indica expertises para o clínico dominar: além da capacidade de apontar e interpretar o sentido oculto de um determinado sintoma, é preciso se empenhar em “escutar a dor de seus clientes, a fim de que esses se tornem capazes de criar novos sentidos e novos caminhos para suas vidas”, confrontando-se com o “não representável”, estando atento à “linguagem potencial do sofrimento” (p. 616). Uma coisa é ler isso, que é motivador, e outra é experimentá-lo na própria pele, o que vai além do fascinante.
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