Imagem: Wikimedia Commons

de Caravaggio,
Michelangelo Merisi
(Ducato di Milano, 1571-1610)
“Pilate exclaimed, as he pointed him out to the people; ‘Ecce homo! Behold the man!’ The hatred of the High Priests and their followers was, if possible, increased at the right of Jesus, and they cried out, ‘Put him to death; crucify him.’ ‘Are you not content?’ said Pilate. ‘The punishment he has received is, beyond question, sufficient to deprive him of all desire of making himself king.’”
Obra: The Dolorous Passion of Our Lord Jesus Christ. Chapter XXVII. Ecce Homo. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1862, London. Da Irmã Anna Catarina Emmeric (Deutschland/Coesfeld/Flamschen, 1774-1824).
O filme A Paixão de Cristo (2004), dirigido por Mel Gibson, talvez seja a maior referência na páscoa cristã não somente entre católicos. Lançado no tempo em que fui seminarista da confissão batista, no meio protestante me lembro de como foi muito bem recebido.
O icônico filme de Mel Gibson se baseia em tradições católicas, obviamente incluindo os Evangelhos (originados de tradições apostólicas e católicas), e entre as fontes não canônicas que inspiraram o roteiro do filme [558], destaca-se o impressionante livro A Dolorosa Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo (tradução livre), escrito pela freira agostiniana e mística alemã Anna Catarina Emmeric.
O gênero do livro da freira Anna Catarina Emmeric, penso, pode ser definido como testemunho de fé; seu teor é devocional e consiste em relatos que estão baseados em visões da Paixão de Cristo que a irmã teve.
O livro impressiona pela riqueza de detalhes com que a Paixão de Cristo é descrita, cujo realismo foi muito bem adaptado no filme. Lembro-me quando assisti ao filme pela primeira vez e fiquei com a impressão de que as cenas pareciam ter sido produzidas como se alguém as tivesse visto in loco, tamanho o realismo.
Quando conheci o livro da freira Anna Catarina Emmeric, então, pensei, para quem tem fé ou não no testemunho da irmã, entendi que o mérito de Mel Gibson foi ter transportado para a sétima arte a essência de um livro riquíssimo em detalhes, baseado em visões.
Quando via a obra Ecce Homo de Caravaggio, pensei no que tinha assimilado do realismo típico do artista que me sensibilizou de forma diferente, diria bem mais distinta, quando li o Ecce Homo descrito no livro da irmã Emmeric:
“Os cruéis carrascos então levaram o Nosso Senhor de volta ao palácio de Pilatos, com o manto escarlate ainda jogado sobre os ombros, a coroa de espinhos na cabeça e a vara em suas mãos acorrentadas. Ele estava completamente irreconhecível, com os olhos, a boca e a barba cobertos de sangue, o corpo com apenas uma ferida, e as costas curvadas como as de um idoso, enquanto cada membro tremia ao caminhar. Quando Pilatos o viu parado na entrada de seu tribunal, até ele (de coração duro como geralmente o era) ao iniciar estremeceu de horror e compaixão, enquanto os bárbaros sacerdotes e o povo, longe de se comoverem com piedade, continuavam com seus insultos e zombarias. Quando Jesus subiu as escadas, Pilatos adiantou-se, soou a trombeta para anunciar que o governador estava prestes a falar, e se dirigiu aos principais sacerdotes e demais presentes com as seguintes palavras: “Eis que o trago à presença de vocês, para que saibam que não encontro nele causa alguma.”
A sequência da audiência com Pilatos, onde Jesus “com dificuldade, ergueu a cabeça ferida, com a coroa de espinhos, e lançou seu olhar exausto sobre a multidão agitada”, também me parece muito próxima da cena do filme, a indicar como o livro de Anna Catarina Emmeric deve ter impactado e influenciado Mel Gibson.
Pensei neste trecho (p. 139) em relação à cena do filme sobre o “véu de Verônica”, assim descrita no livro de visões da irmã Emmeric:
“[…] Os que marchavam à frente da procissão tentaram empurrá-la pelas costas; mas ela abriu caminho através da multidão, dos soldados e dos arqueiros, chegou a Jesus, ajoelhou-se diante dele e apresentou o véu, dizendo ao mesmo tempo: ‘Permita-me enxugar o rosto do meu Senhor.’ Jesus pegou o véu em sua mão esquerda, enxugou o rosto ensanguentado e o devolveu com agradecimentos. […]”
A Dolorosa Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo se revelou ainda mais impactante que o filme, entendi, seja pela maior riqueza de detalhes, o que é compreensível pelo tempo limitado normalmente aplicável a um filme onde o diretor não tem como contar toda a história como se apresenta no livro de referência, seja pelo que se narra no livro sobre a Santíssima Maria em Descrição da Aparição Pessoal da Bem-Aventurada Virgem (Capítulo XXV), um relato da Virgem durante a prisão e o flagelo de Jesus.
A freira Anna Catarina Emmeric foi beatificada pelo papa João Paulo II em 3 de outubro de 2004 [559].
558. Ver a obra Jesus and Mel Gibson’s The Passion of the Christ. A&C Black. pp. 160–161, de Corley, Kathleen E. Corley e Robert Leslie Webb (2004).
559. Ver Vaticano: ANNA KATHARINA EMMERICK (1774-1824