Imagem: Livraria Victor Sales Pinheiro

“Uma das piores características do nosso tempo é que nos desabituamos ao silêncio […]”
Obra: Virtudes no cotidiano. Capítulo 1. Sinceridade. Solidão e silêncio. Auster, 2022, Campinas. De Victor Sales Pinheiro.
Presente do dia dos pais. O estilo da abordagem de Victor Sales Pinheiro lembra o de meu mentor, por isso a leitura me fez sentir em casa.
Pessoas com a atenção dispersa (p. 34), eis uma característica do nosso tempo, suscitada pelo professor da UFPA. Soa-me a desatenção como uma epidemia.
O tema levantado pelo professor me fez pensar em um evento fechado recente que realizei no Zoom. Enquanto fazia uma abordagem de um problema contábil de razoável complexidade sobre a Reforma Tributária, decidi fazer perguntas sobre o que eu tinha falado nos últimos dois minutos, para verificar o nível de concentração do grupo, composto por cinco participantes, e o resultado; apenas um conseguiu responder. Não se tratava necessariamente de falta de interesse, pois havia um jovem no setor fiscal que tentava heroicamente participar da reunião em meio a um bombardeio de coisas demandando sua atenção, e assim em vários momentos ele se desculpou por fechar o vídeo por conta de um pedido ou de um cliente que chegou até sua mesa, sem que houvesse uma triagem, muito menos um direcionamento de tarefas para outra pessoa. Por outro lado, no setor contábil, duas colaboradoras acabaram por revelar o ambiente ruidoso em que trabalham, o que penso ser uma condição incompatível com a contabilidade. Não sei se deixaram o canal de microfone aberto para externar uma situação que as impedia de uma melhor oitiva, pois ao fundo se podia ouvir uma conversa entre dois clientes, digna de uma mesa de bar cujo volume era suficiente para atrapalhar a concentração, além do abre e fecha da porta de onde se propagava o som da TV que fica na recepção ecoando pela sala onde estavam, tudo a confluir em nossos tímpanos via fone de ouvido. Decidi então ficar em silêncio e comecei a contar o tempo em que isso seria percebido. Levou cerca de 20 segundos para que o solitário atencioso da turma, um senhor de meia idade, interrompesse o evento. Ele pediu cinco minutos para “tomar providências”, entenda-se, pedir que acomodassem os clientes da conversa em outro lugar e reduzir o volume do aparelho televisivo.
Em várias ocasiões do dia me flagro buscando aqueles momentos “sem rádio e sem notícia das ‘terra civilizada'”, na simplicidade cantada no verso final de Riacho do Navio, do Rei do Baião e de Zé Dantas. Prefiro muitas vezes ficar desinformado, sem TV, sem telas, sem pressa e sob um silêncio que não tem preço, o que às vezes resulta em um contraste com o estilo acelerado e desfocado do que vejo não somente na geração Z. Sou um estrangeiro no mundo em que tudo é para ontem, um alienígena que anda por um tempo marcado pela intolerância a uma mínima espera. O caso mais comum dessa pressa que caracteriza a dispersão vejo em meu cotidiano, no trabalho de suporte quando, durante o tratamento de um problema, o usuário tenta se envolver com outra questão, quando não, adiciona outra ou fala sobre outras que não importam em relação ao que se encontra em andamento, como se estivesse propondo um modo multitasking, crendo que temos o dom da onipresença. Penso nisso como uma síndrome que acomete quem se comporta como se fosse deus, ou seja, capaz de lidar com vários problemas complexos estando em inúmeros lugares ao mesmo tempo. Não passa de uma ilusão, mas infelizmente muitos não percebem e quando a identifico, reitero minha filosofia de “um problema de cada vez” para que o cliente se volte ao aqui e agora, o que ajuda a neutralizar gatilhos de ansiedade e estresse desnecessário.
Aprendi que a desatenção, mesmo a mais banal, é um problema crônico quando comecei a praticar técnicas de mindfulness. Primeiro com o que acontece em minha mente ocupada por pensamentos, depois em sinais de meu corpo até alcançar meu método de atendimento. A dispersão é tóxica para o que entendo pela visão budista como “harmonia da vida” nos exercícios da atenção plena, da reflexão e da meditação, o que se relaciona, entendo, com que o autor aponta em relação ao que impede uma “imersão plena na realidade” (p. 34). Contudo, a prática dessa imersão mais trabalhada, tão íntima do silêncio e da solidão, choca-se com o que está descrito no trecho (p. 35) desta Leitura. Sobre isso, pensei no quanto a minha decisão de não ter celular pessoal, nem redes sociais, tem muito a ver com o que aborda o autor. Pensei também na ilusão massificada com esses dispositivos atrelados a aplicativos que transmitem a ideia de que não há mais distância entre pessoas no sentido de acioná-las a um toque de botão. Pensei sobre como não me submeter a esse modo desumano e acelerado de vida, a saber como as mentes são cobiçadas e manipuladas pela selvageria de negócios de tecnologia que concorrem entre si, alimentando-se da distração em massa.
Para não ficar em submissão, constatei que sem momentos de reclusão e profundo silêncio não posso cuidar de meu autoconhecimento, chave para neutralizar tentativas de alienação e manipulação. Solidão e silêncio compõem então o que penso a respeito, dentro do entendimento do autor (p. 35). Argumenta o docente: para que o exercício da concentração seja efetivo é preciso cultivar uma solidão para que “nos voltemos a nós mesmos e a Deus” (p. 34)a citar o meu santo favorito, Agostinho de Hipona. Desconectar-se, desligar-se, ficar off por um tempo razoável, eis o caminho natural que encontrei. Penso aqui na solidão como uma experiência fundamental para uma sondagem de meu ser, enquanto proporciona sentido ao pensar, ao recapitular, ao escrever, ao refletir… A leitura, a reza, a oração, a meditação se tornam integradas possibilitando uma conversa com Deus, assim pensei quando o autor trata da “solidão intelectual” (p. 35).
Certa vez me perguntaram se eu sou autista pela minha “neura” com lugares barulhentos. Pensei em uma imagem aprazível: estar com familiares e amigos à mesa, mas se esvai quando a atenção ao que está acontecendo, um exercício de comunhão, dá lugar àquelas telinhas com suas rolagens viciantes de aplicativos que hipnotizam, além da mistura de estímulos visuais e sonoros de um mundo ruidoso e carregado de imagens a estressar nossos sentidos indevidamente, de maneira que se converte uma bela experiência socializante em um bizarro encontro de pessoas física e afetivamente próximas, porém espiritual e mentalmente distantes.
Então penso… Viva os momentos de reclusão… Viva o silêncio de uma sinfonia de atenção plena com pensamentos valseando com a natureza, tudo e todos unidos em acordes.
2 Replies to “13/08/2026 20h17 Virtudes no cotidiano. Solidão e silêncio”