Imagem: Thich Nhat Hanh Foundation

Thich Nhat Hanh

“O silêncio é essencial. Nós precisamos de silêncio como precisamos de ar […]”

Obra: Silêncio. 1. Uma dieta constante de barulho. HarperCollins, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Rodrigo Peixoto. De Thich Nhat Hanh (Vietnã/Hué, 1926-2022).

Não vivo nas montanhas, nem sozinho e sem eletricidade (p. 16), não sou o pastor Abdoral [630], e para ter alguma chance de aproveitar melhor o silêncio, preciso acordar bem cedo. Quando estou caminhando para um disparo de corrida no nascer do sol, vejo como é singular esse momento em que prevalece nas ruas um silêncio, vez ou outra suavemente rompido pela natureza por um canto de um pássaro ou um soprar do vento.

Bem sei que essa experiência será breve, pois estando em uma cidade normal, há considerável espectro de estímulos sonoros que começarão a se manifestar tornando-se predominantes. Então se passam alguns minutos, aumenta o fluxo de um carro ali, uma moto acolá… passo próximo a feira e há um rádio de um ambulante normalmente reproduzindo programas policiais cujo volume é suficiente para chegar bem aos meus tímpanos na calçada do outro lado da rua.

Um cliente me contou recentemente sobre uma curiosidade em relação a um comentário recorrente que escuta de quem andou em seu veículo elétrico: “É silencioso demais, poderia ligar o som?”. Quando ele responde que gosta do silêncio que o motor elétrico proporciona e que em Pequim, na China, o centro da cidade é muito silencioso justamente por causa dos elétricos, nota um olhar como se ele fosse alguém de outro mundo.

Disse ao cliente: “Creia irmão! Você não está só!” (risos).

Pensei também no escritório onde a poluição sonora ficou exposta e atrapalhou um evento que realizei no Zoom [631]. Após o ocorrido, o proprietário explicou a razão de colocar um aparelho de TV na recepção:

– Estamos próximos a um parque muito usado para caminhadas e são poucos estabelecimentos comerciais por perto. Por aqui faz muito silêncio e percebi que a recepção estava monótona (entenda-se, silenciosa). Então, resolvi colocar uma TV para distrair os clientes, principalmente quando vi um cochilando no sofá.

Pensei: “Que lugar encantador para se ter um escritório de contabilidade!”. Imagino o quanto ele vai sorrir ao ler este texto, pois a nossa conversa terminou com a decisão de remover o aparelho da recepção.

Eis exatamente o problema deste mundo: o que Thich Nhat Hanh aponta sobre a indisposição ao silêncio. Um mundo corrido, acelerado, cujo padrão é consumir sempre algo, “textos, música, rádio, televisão ou pensamentos” (p. 17). Um mundo inóspito à experiência proposta pelo monge vietnamita cujas obras ocupam um lugar especial no meu coração de leitor.

Minha “neura” com poluição sonora é antiga. Entre 1997 e 2000 foi cogitada a hipótese de eu ser autista, descartada por teste durante uma terapia [633]. Socialmente, ao perceber muito barulho em um lugar, fico um pouco e me retiro. Quando preciso passar pelo centro da cidade naquele horário em que o silêncio é inimigo público numero um, observo o poder da poluição sonora nas ruas: carros de propaganda, veículos de particulares que até vibram com o volume por batidas de uma coisa chamada de “música” com um teor, penso, venenoso à alma. Quando o semáforo fica vermelho, posso ver melhor as lojas de onde sou alvejado por um caldeirão de ruídos, mesmo com os vidros totalmente levantados. Bem ao lado se oferece uma trilha com músicas para tirar as crianças da sala e anúncios com batidas viciantes, tudo a compor um cenário que poderia ser classificado como insalubre para a saúde mental de passantes a colaboradores e clientes.

Também pensei sobre o atual tempo de campanha eleitoral e no quanto essa poluição aumenta ao insuportável, pois antigamente havia os jingles um tanto infantis, breves, mas hoje o que se faz com propaganda política é tão vulgar, tóxico, quanto o que é disseminado no comércio. Dizem que se trata do gosto popular… Não sei. Sendo assim, pelo menos fica mais fácil avaliar um candidato a partir do conteúdo que dissemina em sua publicidade sonora poluente.

Nesse mundo normal que vivo, tão corrido, apressado, de pouca profundidade e muita aparência, mundo da “modernidade líquida” – aqui faço uso da terminologia de Bauman [632] – , que não prioriza o parar para pensar, que decide quase tudo apertando um botão enquanto se faz outra coisa, e outra… e outra…. tal mundo tão cheio de progressos tecnológicos, simplesmente não me apetece; é patológico, catalisador de transtornos diversos, sendo o principal, o de ansiedade. Isso posto, estou a pensar no silêncio como recurso indispensável na sabedoria de Thich Nhat Hanh, tão necessário quando o ar que respiro (trecho, p. 16). Por quê? Preciso do silêncio para ter condições de experimentar a vida em um nível de atenção plena, mais profundo e inspirador, a partir de uma sondagem que careço de realizar sobre mim mesmo, além de pessoas e coisas que me cercam.

Mesmo sem algum barulho, volto ao problema dos estímulos contínuos a pensar quanto é difícil viver “sem um texto ou qualquer outra informação vinda de fora” (p. 16), e mesmo sem ruído, a graciosa presença do silêncio pode ser comprometida até sem barulho, por meio do pensamento. Eis o que consiste o bombardeio de estar sempre conectado (p. 18), mesmo em “silêncio” no sentido literal, a receber mensagens, notificações, e-mails e coisas do tipo no universo alucinante de aplicativos que disputam minha atenção. Faz-me soar sempre um alerta. Essa exposição é igualmente tóxica e precisa ser identificada e contida, de preferência, reduzida paulatinamente e até mesmo neutralizada na maior parte do dia. Todavia, mesmo com esse propósito de acolher o silêncio, sei que uma mente inquieta, ansiosa, pensando nisso ou naquilo, também interrompe um momento sagrado que possibilita o voltar a si mesmo. Assim, o “silêncio” que o monge budista se refere significa mais que o silêncio literalmente falando; é abrangente e envolve o meu interior, o meu pensar, a minha disposição para me desvencilhar da dispersão, o quando dou de atenção à higiene de minhas atividades mentais, o quanto sou determinado ao aqui e agora no “voltar-se para si” para que seja possível começar a viver essa experiência solene.

630. Um de meus heterônimos. Ver em 05/01/2024 21h58

631. 13/08/2026 20h17

632. 09/05/2024 23h08

633. 04/02/2026 20h00

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