Imagem: Thich Nhat Hanh Foundation

Thich Nhat Hanh

“Praticamente todo mundo sabe disto: o que comemos afeta a maneira como nos sentimos. Comidas ruins nos deixam cansados, mal-humorados, nervosos, nos sentindo culpados e apenas momentaneamente satisfeitos. Frutas e vegetais, por outro lado, nos deixam cheios de energia, saudáveis e bem nutridos.”

Obra: Silêncio. 1. Uma dieta constante de barulho. Alimentos comestíveis. HarperCollins, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Rodrigo Peixoto. De Thich Nhat Hanh (Vietnã/Hué, 1926-2022).

“E muitas vezes não comemos por fome, mas para alcançarmos um consolo e certa distração frente a sentimentos desconfortáveis” (p. 20), completa o monge. Busca-se então “disfarçar” com a alimentação sem fome o que se está sentindo de verdade.

O trecho (p. 20) desta Leitura se refere a “comidas ruins” que “nos deixam cansados, mal-humorados, nervosos, nos sentindo culpados e apenas momentaneamente satisfeitos”.

Comidas ruins… Como defini-las? No início de março deste ano esta pergunta se tornou frequente. Após uma sessão de mindfulness, cerca de uma hora e meia depois, próximo ao retorno para o segundo expediente, sentei novamente para mais um exercício de “atenção plena”. Comecei a perceber o que a deliciosa carne vermelha, a massa (macarrão) e o café, consumidos por volta das 12h15, estavam causando além do empachamento e da queimação no estômago, relacionados com o meu estado de humor. Estava na terceira semana do novo medicamento que controla (com eficácia) minha pressão arterial. Resolvi repetir a experiência nos dias seguintes e o resultado foi meu rompimento com o café. Em maio segui sem o café e com o restante da alimentação habitual, no entanto, em mais um exercício de mindfulness foi a vez do chocolate, após duas horas da ingestão de uma barra de 90g. Quando exposto (ao café e ao chocolate), passei a experimentar a mesma rejeição que tenho a bebidas alcoólicas desde a adolescência. Massa, fritura, leite e processados em geral foram sendo avaliados e abandonados gradualmente.

Outro aspecto me chamou a atenção nesta experiência de leitura e diz respeito à ansiedade do amigo do monge em um retiro (p. 21), penso, um tanto comum quando se pensa em alimentação e que pode ser identificada e tratada com mindfulness. Percebi que esse tipo de ansiedade não tem a ver necessariamente com a refeição em si, mas com problemas que ocupam meus pensamentos e ficam camuflados nos sentidos que despertam prazer efêmero no ato de se alimentar. Era o que eu sentia no cheiro e na imagem do café, idem no chocolate, em frituras, massas…. refrigerante e leite que residem em uma memória mais resistente do paladar entraram nessa lista e também foram totalmente abandonados… Uma vez neutralizada a ansiedade no momento da refeição, a camuflagem de outras preocupações parou de funcionar como instrumento que mantinha a porta de minhas disposição a comer além do necessário, e o resultado é que parei de ceder ao estímulo de consumo dos alimentos mencionados. Comecei a constatar isso no início de junho na medida em que passei a substituí-los por vegetais e frutas.

O médico que me acompanha desde o início do ano parece impressionado com a perda de peso nos últimos dois meses em meio à nova dieta, contudo, o que vem despertando maior interesse em mim, nesse processo, reside no estado de bem-estar após cada refeição, enquanto noto que estou mais sensível a sinais do meu corpo. Noto também uma maior inclinação à busca do silêncio como se fosse uma forma de alimento, o que explica o novo hábito de acordar muito cedo, além de uma sensação inusitada de constantemente mapear variações de minha respiração, e aqui penso durante o expediente de suporte quando noto um aumento de estresse e, sobretudo, na prática da corrida, onde o limite do tempo de exercício sinaliza estar mais relacionado com o sobrepeso, o condicionamento muscular e o desgaste das juntas, e menos com a natural sensação de ficar ofegante.

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