Imagem: Mises Brasil

Ludwig von Mises

“A crítica ao lucro feita pelos moralistas e pregadores erra o alvo. Não é culpa dos empresários se o consumidor – o povo, o homem comum – prefere bebidas alcoólicas à bíblia e romances policiais a livros sérios, e se o governo prefere canhões à manteiga. O empresário não tem lucros maiores por vender coisas “más” em vez de vender coisas “boas”. Seus lucros são tanto maiores quanto mais consiga prover os consumidores com aquilo que eles mais desejam. As pessoas não bebem bebidas fortes para satisfazer os “capitalistas do álcool”, nem vão à guerra para aumentar os lucros dos “mercadores da morte”. A existência de uma indústria de armamentos é consequência do espírito beligerante, não sua causa.”

Obra Obra: Ação Humana. Um Tratado de Economia. Capítulo 15 – O mercado. 9. Lucros e perdas empresariais numa economia em desenvolvimento. Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, São Paulo. Tradução de Donald Stewart Jr. De Ludwig Heinrich Edler von Mises (Áustria-Hungria/Leópolis, 1881-1973).

Este trecho (p. 360) também me fez lembrar de outra experiência de leitura [637]:

[…] de um irmão neófito de uma igreja pentecostal, comerciante, lá pelos idos de 2007, que me convidou para conhecer seu mercadinho.

Estava animado com o novo layout das gondolas, mas quando chegamos na parte das bebidas, notei o grande destaque às promoções; havia uma vasta oferta, sobretudo entre os variados tipos e teores alcoólicos, então ele me olhou sob constrangimento e comentou: “temos que vender não é irmão, senão perdemos freguesia”. Comentei: “é o imperativo do mercado, irmão, onde nem sempre podemos esperar aquilo que entendemos por melhor”. O irmão não abdicou da venda de bebidas alcoólicas, pois entendeu que é indispensável atender a um público diverso que faz o mercado se movimentar, cujos interesses estão dispersos e acima de suas convicções de moralidade e religião, pois caso contrário, não realizaria o lucro satisfatório para manter seu negócio, salvo se tiver fé suficiente para promover um inusitado mercadinho “crente raiz”, o que me parece improvável.

O meu eu até 1994 ficaria indignado ao ler Mises.

O meu eu do tempo presente, que tanto aprendeu com este sábio do pensamento econômico que deixou o legado sobre o problema do cálculo econômico no socialismo, apenas tem algumas questões:

O mercado de consumo é consequência de valores cultivados por consumidores, no entanto isso não minimiza o problema do consumismo e da manipulação de marketing que dele se deriva.

Até que ponto uma decisão de consumo é consciente?, anotei em uma releitura (2011). A dependência química é um exemplo de consumo induzido pelo vício e o que seriam estratégias de marketing que alcançam um público adoecido por esse tipo de consumo?

O que significa promover o consumo manipulado, além do necessário ou de forma inadvertida?

Em outras palavras:

Até que ponto um ofertante com um sistema de marketing que induz clientes a tomadas de decisões que os prejudicam de alguma forma, está apenas realizando o seu trabalho de empresário que “serve os consumidores tal como eles são hoje, por mais perversos e ignorantes que sejam” (p. 360)?

Quando levantei este questionamento em um grupo de austríacos libertários tão militantes quanto socialistas que conheci nos anos 1990, não obtive uma resposta além do niilismo de cada dia, apesar de alguns se considerarem “conservadores”.

Afirma Mises que “não compete aos empresários fazer as pessoas substituírem ideologias malsãs por ideologias saudáveis” (p. 360), e pensei, o mesmo se aplicaria a não promoção de ideologias de consumo improprio, nocivo ou desenfreado?

637. 05/08/2025 22h18

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