Imagem: Portal da Literatura

Augusto Cury

“[…] Pensem nos mais diversos povos do mundo. Por que eles se dividem, fazem guerras e lutam uns contra os outros? Que paixão lhes falta?”

Obra: Ansiedade. Como enfrentar o mal do século para filhos e alunos. 10. Um professor que provoca a inteligência. Saraiva, 2015, São Paulo. De Augusto Jorge Cury (Brasil/São Paulo/Colina, 1958).

As histórias da Turma da Floresta Viva é uma das preciosidades da produção literária do psiquiatra Augusto Cury.

Cacá e Carol são dois adolescentes no contexto da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Na jornada pela Floresta Viva, neste capítulo estão diante do professor Coruja. Cacá, um garoto que “reclamava muito e agradecia pouco” coisas que pode usufruir na vida como “o brilho do sol, os alimentos sobre a mesa, a cama macia”. O menino era “um pequeno rei que transformara seus pais em servos”, e não surpreende que tenha ficado surpreso ao saber que realizará testes para ser admitido como explorador da Floresta Viva (p. 79).

No primeiro teste – da sabedoria -, das três paixões, Cacá rapidamente acertou as duas primeiras: pela natureza e pelos livros. Mas surgiu uma indagação do professor sobre quantos tipos de livros existem, e Carol “teve um estalo” ao indagar se também é uma forma de leitura o “canto dos pássaros”, o “som dos trovões”, o “movimento das folhas”, e Cacá completa ao elencar as “estações do ano”, a “cor dos alimentos” e o “perfume das flores”, o que deixou o professor animado para lhes dizer que os livros representam o conhecimento e a natureza é “um livro vivo, mas pouco útil para quem não aprende a lê-lo” (p. 80). Aqui penso nas diversas formas de textos além dos cinco tipos descritos em manuais. Refiro-me ao que é falado, pensado, movimentado (o corpo que fala, além da mímica, explicita) e também na forma que a poetisa francesa Cécile Coulon pensa a respeito [642] do texto que pulsa e está na respiração enquanto caminha.

Os irmãos gêmeos ficaram tensos sobre a terceira paixão e assim cederam à ansiedade que “se tornou uma armadilha que os impedia de pensar” e passaram a dar respostas à esmo que destoavam do inspirador início do diálogo com o professor (p. 82). Augusto Cury insere na narrativa elementos típicos da geração alfa: “celular”, “esportes”, provas”, “videogames”, “moda” e então vem a frustração do professor Coruja e da própria natureza – por fábula – a reprovar os candidatos, com as iguanas em coro (p. 83)

– Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha!

Então Carol tem um insight a contestar o professor acerca da injustiça de esperar por uma resposta inteligente sobre o que não foi ensinado. Cacá lembrou ao Corujão de que “se calar por medo de errar é pior do que o próprio erro”. “Temos sede de aprender…” e “se você tiver sede de ensinar, formaremos uma classe perfeita”, disse o menino, o que deixou o professor sorrindo, quando então lhes deu uma dica (trecho, p. 84), cuja resposta da dupla reflete a paixão que a própria espécie humana carece de ter para se enxergar como “uma família” para saber lidar com suas diferenças que causam “guerras”, “lutas pelo poder”, “miséria” e “destruição do meio ambiente” (p. 84). A terceira paixão reside na busca da compreensão do outro, no esforço de inteligência pelo diálogo e pela diversidade humana que reflete a riqueza do “livro” natureza.

Esta obra de Augusto Cury se destina a crianças e a jovens, mas bem que poderia ser apreciada – e quem sabe bem aproveitada – por gente acima que se habituou a tratar as diferenças por um espírito rixoso, quando não extremo ao ódio onde propor diálogo e agenda comum passa a ser um pecado. A “paixão pela humanidade” completa a chave que permite aos irmãos passarem no primeiro teste e traduz uma síntese do espírito que cabe na Floresta Viva.

642. 23/03/2025 19h04

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