Imagem: London Speaker Bureau

“Assim como o capital-nuvem progrediu nos Estados Unidos apoiado no dinheiro do banco central emitido pelo Fed, o mesmo aconteceu na China, apoiado no ímpeto de investimento de Pequim. […]”
Obra: Tecnofeudalismo. O que matou o capitalismo. 6. O impacto global do tecnofeudalismo: a nova guerra fria. Tecnofeudalismo com características chinesas. Planeta do Brasil, 2025, São Paulo. Tradução de Érika Nogueira Vieira. De Ioannis Georgiou “Yanis” Varoufakis (Grécia/Falero, 1961).
O professor grego com este livro, imagino, tem potencial para desagradar todos os lados ideológicos convencionais, algo que eu aprecio. Meu propósito é de compreender sua mensagem e, longe de generalização, se ela tem respaldo em algum exemplo no mundo real. Isso posto, quando conversei recentemente com um pequeno empreendedor que atua em uma das conhecidas empresas do mercado no comércio online, fiz um exercício para tentar vê-lo na perspectiva de um “vassalo moderno”, como versa a teoria do autor, quando então percebi alguns sinais curiosos por incômodos com custos por conta de taxas que forçam uma “margem pequena”, além da “falta de tempo” com a correria da gestão de entrega e feedback de clientes, inclusive em redes sociais, além do sistema da Big Tech. Neste ângulo talvez haja algum sentido para a aplicação do termo “tecnofeudalismo”.
Quanto ao trecho (p. 145) desta Leitura, pensei no quanto o modelo intervencionista chinês pode ser concebido como alternativa ao modelo estadunidense, no entanto, repete o mesmo escopo baseado em um capitalismo de laços que, entre outras práticas, explora o viés de financiamento baseado em expansão de base monetária por banco central. Também pensei que na terminologia de “filochineses”, a economia da China pode ser definida como um “socialismo de mercado”, mas também me lembrei dos que veem o socialismo como uma rejeição ao mercado, o que seria uma contradição em termos. Às vezes “modelo econômico” não passa de um jogo de palavras.
Ao lembrar da mudança (1971) ocorrida na administração Nixon (1969-1974) quando o dólar virou “uma nota promissória glorificada”, o que o autor classifica como “Minotauro” (p. 142) com a demanda (chinesa) sendo mantida pelo déficit comercial (americano) sob a contrapartida do investimento no mercado financeiro (americano, FIRE), esquema que, na visão do professor, beneficia as classes dominantes dos Estados Unidos e da China em detrimento da queda da oferta de emprego (Estados Unidos), com a indústria afetada pela concorrência chinesa, e por outro lado, entre trabalhadores chineses, deu-se “uma exploração desvairada associada com o sobreinvestimento” (p. 143) porém, tal arranjo, penso, encontrou uma crise quando Trump decidiu jogar para cima o tabuleiro do xadrez sem, aparentemente, combinar com Pequim, agindo em nome de uma parcela considerável de eleitores norte-americanos que se queixam da falta de emprego na indústria.
Varoufakis chama de “Dark Deal” (p. 143) esse acordo que, aponta, traz “miséria” para os trabalhadores “de ambos os lados do Pacífico”, mediante interesses das elites americanas e chinesas. Pensei, aqui o professor colocou todo mundo dentro da sala dos malvados, sem mocinhos nessa história, e por isso vejo o quanto sua abordagem neste livro pode irritar todos os que militam em favor do neoliberalismo e do “comunismo” chinês. Já o “Sul Global”, as economias frágeis, onde se situa a brasileira, ficam no meio dessa “Nova Guerra Fria, e na mão de Wall Street com escassez de dólares em comparação com o mar de impressões do Fed que facilita a vida das Big Techs americanas, a contar com o “oficial de justiça”, mais conhecido por Fundo Monetário Internacional (o senso de humor do professor é apurado), na atuação de empréstimos dos dólares mediante garantia “neocolonial” em favor do “Minotauro” (p. 142), sob o modelo do Império Americano, mas então veio o crash de 2008 que fortaleceu a posição chinesa, além do capital-nuvem nos Estados Unidos e na própria China. No lado chinês esse capital-nuvem privado está fortemente atrelado ao controle estatal; é robusto, atua fortemente na vida dos cidadãos e conecta diversos sistemas (serviços online) entre parceiros e clientes dos países aliados. O professor menciona a Nova Rota da Seda da China e o “superfeudo das nuvens” (p. 145) no contexto do que entendi ser um super esquema de Big Brother estatal.
Por fim, pensei em como me pareceu mais fácil de entender um professor local, apaixonado pelo modelo chinês quando, ao mencionar o nome Varoufakis, cujo livro que tenho é da quarta edição, soou-lhe como palavra de baixo-calão. Comportamento análogo se deu com um “liberal” que me aconselhou a não perder tempo lendo essa teoria grega. Uma coisa posso concluir: o professor Varoufakis conseguiu, em minhas duas oitivas, unir dois crentes tão antagônicos; um comunista e um liberal na indignação. Eu o admiro por isso.
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