Imagem: Casa Fernando Pessoa

“O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha esperança.
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha;
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças —
Mortas, porque hão-de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.”
Obra: O andaime. Presença, Junho/1931, 30-32J, Coimbra. De Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935). Poesia ortônima.
Homem-absurdo – por Heitor Odranoel Bonaventura
Acordei para mais
um último suspiro
de tantos outros
na brevidade da vida.
Exauri-me do que
não tinha e fiquei
velho ao nascer
cercado de ilusões.
Mas prefiro morrer
incontavelmente
a cair na inocência
de uma anemoia.
Abraço como um velho
amigo todas as dores
porque me recuso
à saudade do futuro.
Minh’alma peregrina
renasce de um adubo
de sofrimentos, amarguras,
desilusões e angústias.
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