Imagem: Câmara dos Deputados

Enéas Carneiro

“O descontrole é total.

Finalmente, não se diga que não há recursos:

O BNDES tem tanto dinheiro … que até financia compra de nossas estatais pelos estrangeiros.”

Obra: Um Grande Projeto Nacional. 17. O Brasil em perigo. PRONA, 1998. De Enéas Ferreira Carneiro (Brasil/Acre/Rio Branco, 1938-2007).

Eu tinha 14 anos quando vi a inusitada figura do candidato cujo bordão, após alguns segundos de uma fala estonteante, seria eternizado. Foi apenas folclórico? Talvez.

Passaram-se 10 anos e em uma discussão acalorada no plenário de um evento de economia no Recife, suscitada a partir de um grupo de trabalho, com a presença de parlamentares (Congresso Nacional e Assembleia Legislativa/PE), nada conseguiu ser mais substancial que as leituras dos capítulo 15, 16 e 17 desta obra – nos textos para discussão -, quando foram abordados os modelos de manutenção da dívida pública e de privatização, um processo que ganhou continuidade na então segunda administração de Fernando Henrique Cardoso (FHC, 1999-2002), tendo alcançado o setor de telecomunicações.

Um grupo, alinhado com partidos de esquerda, incluindo o principal, do candidato naquela altura tendo passado por três tentativas de chegar à presidência da República, enquanto denunciava o serviço do endividamento – e repetia que, chegando ao poder, como um mantra, faria o que hoje está sob o apelo de “auditoria da dívida” em partidos de extrema esquerda -, alardeou os dados totalizados em dólar apresentados no livro de Enéas Carneiro (pp. 80-88) e fez uso até mesmo da frase que encerra o capítulo, sem mencionar o texto de trabalho, tampouco o autor, o que fora lembrado por um certo rapaz, componente da mesa, um “estranho no ninho”, um tanto inconveniente, que pediu a palavra para informar a referência bibliográfica ao público, diga-se de passagem, plateia igualmente treinada para repetir frases de efeito como “Fora FHC!”, “Moratória já!”, “Fora FMI!, “A Vale é nossa”, “Abre o olho, Brasil!” e “O patrimônio do povo não se vende!” em cada manifestação que, supostamente, tinha propósito de análise econômica, mas parecia mesmo um comício.

O nacionalismo intervencionista de Enéas Carneiro, onde a economia fica centrada nos controles estatais, é lembrado hoje com certo saudosismo, em ambientes bolsonaristas e também em indivíduos que se enxergam como “alternativos”, de “direita” e “liberais em economia”, e a ironia é que esse intervencionismo tinha muita proximidade no que se apregoava na esquerda até o final dos anos 1990, apesar do rótulo dado ao médico, militar e polímata, de representar uma ínfima linha de “extrema-direita”. A esquerda que sairia vencedora em 2002, assim conseguiu abandonando a cartilha de seu “Velho Testamento”, tornando-se “paz e amor”, pelo menos para o dito “mercado” que até então demonizava.

Foi também naquele evento de 1999 que eu percebi que a esquerda brasileira e a direita, pelo menos em suas extremidades, essencialmente são dois irmãos rixosos, que se odeiam, filhos de Getúlio Vargas.

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