Imagem: Other Press

Raja Shehadeh 

“Este jovem havia internalizado a propagando oficial e estava apenas repetindo-a.[…]”

Obra: Caminhos Palestinos. 6. Uma sarha imaginária. Uádi Dalbi. Record, 2009, Rio de Janeiro. Tradução de Palestinian Walks. De Raja Shehadeh (Ramallah, 1952).

No último capítulo desta obra maravilhosa, um encontro não programado entre o autor, a representar o lado palestino, e um colono israelense (p. 221).

Até 1994 eu compartilhava com muitas das opiniões expressas no diálogo por parte do jovem israelense da narrativa, assimiladas no ambiente religioso que servia de linha auxiliar para a propaganda oficial (trecho, p. 226) mencionada por Raja Shehadeh. Há diversos mitos ensinados em igrejas cristãs sobre os supostos “direitos de Israel”, sendo o principal, entendo, o da tal “herança bíblica” face ao que se define como “terra prometida” em registros bíblicos carentes de sustentação histórica. Comecei a mudar de entendimento, por ironia de um judeu [617], quando me tornei colega próximo, na graduação em economia. Tínhamos a mesma idade (19 anos), e ele trazia uma enorme bagagem cultural, muito superior a minha. Falava inglês, hebraico e espanhol fluentemente e na adolescência tinha passado um ano em Israel. Fiquei surpreso quando ouvi dele que “Moisés nunca existiu; não passa de uma lenda que celebramos”. Ele foi a primeira pessoa que abordou o Moisés bíblico daquela forma, o que me despertou muita curiosidade, ainda mais tendo escutado isso de um judeu.

Sendo muito crítico ao sionismo e, por tabela, da forma como o Estado de Israel fora instituído, não fazia o tipo judeu dissidente irritante pró-palestina que só sabe condenar a presença israelense na região; seus argumentos eram bem fundamentados em referências bibliográficas e dados os quais eu desconhecia totalmente, a começar em relação à ancestralidade comum muito antiga no Oriente Médio entre judeus e árabes, o que fora verificado nos estudos de DNA, alguns da Dra. Batsheva Bonné-Tamir, além de livros (só tinha em inglês ou em hebraico) de professores de história da Universidade de Tel Aviv e de autores que ouvi falar pela primeira vez, como Edward Said e Hannah Arendt, esta última com uma curiosa trajetória de mudança de posição. Em suma, a forma como o meu colega abordou o problema da Palestina foi essencial para que eu começasse a saber diferenciar o judeu sionista do judeu não sionista, enquanto crítico do que fora realizado com o Estado de Israel. Amar a Palestina, ele argumentava, significa se integrar à região pacificamente sem causar danos a nativos não-judeus; eis o norte político que ele entendia para os judeus que desejassem viver por lá.

Conversas e leituras foram se tornando cada vez mais interessantes e não demorou muito para que eu descobrisse que o Estado de Israel foi um estágio de um processo longo, imposto inicialmente com a conveniência dos ingleses mediante um mandato que começou em 1920 na região, e preparou o caminho para facilitar os planos sionistas (p. 230). Ainda naquele 1994, meu colega judeu me apresentou uma obra em inglês intitulada Expulsion of the Palestinians. The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought 1882-1948, de Nur Masalha [619], para explicar como as terras foram desapropriadas dos palestinos, onde ouvi pela primeira vez o termo Jewish National Fund (JNF) , mas pediu para que eu mesmo a conferisse , junto com outros materiais que me indicou para que eu desenvolvesse minhas próprias conclusões. Conheci então, por essas leituras, a história do JFN, o fundo sionista que viabilizou o processo de fazer com que terras fossem gradualmente passando para as mãos de colonos investidores no âmbito do que seria o Estado judeu. Já o que Raja Shehadeh menciona na conversa com o jovem israelense é outro processo de tomada, que consistiu em juridicamente transformar terras palestinas ocupadas em “públicas” (p. 231) para justificar projetos urbanísticos, claro, exclusivos a cidadãos do Estado de Israel. Naquele tempo de descobertas, ficou-me clara a raiz da revolta de palestinos, pelo profundo sofrimento submetido na forma de massacres e remoções compulsórias dos indesejados que fizeram palestinos se tornarem refugiados em sua própria terra.

Um ano depois em mim não havia mais aquele jovem deslumbrado com a história romântica do “povo de Deus” voltando para a “terra prometida”, e sim um sujeito indignado com o que fizeram com os palestinos, cujos sermões que romantizavam Israel na região já não tinham mais qualquer efeito em minha fé cristã, que se conservava diante dessas descobertas.

617. 06/08/2026 20h30

618. Naquele tempo eu percebi que o melhor a ser feito no ambiente universitário era me aproximar de pessoas que tivessem maior apreço para interagir comigo compartilhando cultura e conhecimento. Naturalmente então ficamos próximos.

619. 23/11/2023 23h14

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *