Imagem: Psychwire

“A técnica mais forte para superar ataques de pânico é observar as situações físicas como um cientista observa um experimento: sem tentar controlá-las.”
Obra: Basta pensar diferente. Como a ciência pode ajudar você a ver o mundo por novos olhos. Seis. Lidar com a ansiedade. Evite a evitação. Observe as sensações. Fundamento, 2014, São Paulo. Tradução de Um Triz Comunicação Visual Ltda (Alda Porto). De Sarah Edelman.
Quando a dor passa a significar parte da solução – por Leonardo Amorim
Aos seis anos sofri um acidente ao cair sobre uma lata aberta em um depósito de um posto de combustíveis. Com um corte relativamente profundo na perna direita um pouco acima do tornozelo, fui levado ao Hospital Agamenon Magalhães. Faltava anestesia e o médico, certamente por perceber a urgência para evitar um dano maior, decidiu realizar os procedimentos assim mesmo. A injeção (contra o tétano), a limpeza e a costura me fizeram delirar na mesa. Foi a maior dor física que senti na vida. [496]
Um problema que me incomodava bastante, pelo menos até próximo dos 40 anos de idade: pânico diante de seringa ou qualquer objeto cortante/perfurante por necessidade de tratamento médico.
Foi um tratamento similar ao de outra ocorrência relacionada a pânico, a primeira, identificada em 1997, por uma combinação de (1) ressignificação do evento original, (2) exposição gradual a situações com seringas e bisturis e (3) prática de conversa racional, durante as exposições, para neutralizar a ansiedade via cognição distorcida, catastrófica.
Para superá-lo precisei identificar sua “causa causante”, que me remeteu ao estudo do funcionamento de minha memória implícita que me induzia a um pensamento enviesado, automático, ligado ao estímulode objeto perfurante ou cortante, problema que me reconectava a um trauma de infância que precisava ser vencido:
A ressignificação do evento original foi um trabalho de reavaliação do seu contexto para entender a importante ação do médico da emergência: ele tomou a melhor decisão possível para me poupar de um dano maior na perna. Como desdobramento dessa reflexão, compreendi que aquela profunda dor física foi necessária diante das circunstâncias, mesmo para uma criança de seis anos. Ao reconhecer a inevitabilidade da dor e o papel profissional que realizou muito bem o seu trabalho, dei um grande passo para vencer o trauma. A dor passou a ter peso maior no significado de solução e não uma memória para gatilho.
Em seguida tive que testar essa reinterpretação do fato mediante exposições graduais a seringas e a agulhas (p. 206). Também fui exposto a bisturis e outros instrumentos cirúrgicos em experimentos paralelos à prática de questionamento racional e introspectivo. Estimulado ao contato e a coletas de sangue, foi aproveitada a minha inclinação racionalista para duvidar do que estava sentindo e em seguida, questionar se estava mesmo diante de uma situação de dor extrema ligada a que senti no evento original, pela iminência de ter o corpo novamente perfurado. Aprendi a usar meu espírito de apreciador da ciência para observar o que realmente estava acontecendo (trecho, p. 204) e assim pensar diferente diante de um estímulo dessa natureza.
Compreendi que a situação pode ser desagradável, mas não é prejudicial, além do quão equivocado fora o entendimento enviesado pela não confirmação do que se apresentava na sensação de iminente catástrofe (p. 205). Então percebi que parei de entrar em pânico e os sintomas da síndrome se foram. Fato é que durante a pandemia, para tomar como exemplo, a tranquila reação ao ser exposto a seringas chamou a atenção de minha esposa, que tinha observado o problema em uma coleta de sangue alguns anos atrás.
O Leonardo de seis anos segue dentro de mim; é a minha criança-sombra com seu sistema de crenças [497]. Todos nós temos uma em nosso interior. A diferença entre identificá-la, respeitá-la e não se deixar levar pelo seu entendimento enviesado por alguma experiência muito desagradável na infância, é o que faz a diferença para a superação de traumas que repercutem na vida adulta.
Considero fundamental essa busca do autoconhecimento, embora sei que muitos a ignorem, em parte, porque é constrangedor e pode chegar a ser repugnante o processo de investigar eventos desagradáveis da infância ou da juventude. Em suma, encerro o que escutei como alerta no inicio da terapia: estudar eventos traumáticos do próprio passado, seja remoto ou da juventude, será inevitavelmente desgastante, doloroso, porém, no final, poderá ser libertador.
496. 18/10/2025 19h27
497. 10/12/2023 12h47
2 Replies to “06/12/2025 16h25 Basta pensar diferente. Observe as sensações”