Imagem: Poetry Foundation

Só irei até o alto do morro uma única vez – disse a enferma – e você me deixará lá em cima, sozinha, para sempre. Quando chegar a primavera de novo , você desejará ter-me dentro desta casa e, revendo o passado, talvez pense que era feliz no dia de hoje.
Obra: O Morro dos Ventos Uivantes. Capítulo XIII. Record, 2013, Rio de Janeiro. Tradução de Rachel de Queiroz. Grandes Traduções. De Emily Jane Brontë (UK/England/Bradford/Thorton, 1818-1848).
É a chegada da primavera em Wuthering Heights e a jovem Catherine assim responde ao seu devotado esposo, Edgar Linton, que a velava dia e noite (p. 163) enquanto ela estava enferma. Pensei, certamente Catherine falou assim com Edgar movida pela sua peculiar passionalidade no “amor” de sua vida: Heathcliff.
Catherine consegue sair da reclusão, parece melhor, aprecia as flores e sutilmente chora (p. 164), entendo, no recalque emocional enquanto recebe carícias de Edgar. Ela parece saber que a incapacidade de correspondê-lo à altura faz parte de um problema maior que terá que carregar em sua mal resolvida vida afetiva, cujo desfecho desagradável virá de uma forma ou de outra.
O ingrediente de Catherine ter escolhido Edgar por conveniência financeira, algo tão banal em muitos casamentos “bem sucedidos”, fez-me pensar em quantas jovens hoje seguem pelo mesmo caminho, em diferentes contextos sociais, e assim decidem por um homem “porto seguro”, preferem um negócio cujo vazio de amor é tão similar quanto à rejeição que teve por quem acredita ter um autêntico, e assim padecem nas sombras de um casamento que já nasce morto, apesar de muitas vezes saberem fingir muito bem o contrário.
A situação da personagem um tanto mimada se liga ao dilema de um afeto antigo não realizado por interesses materiais que se torna obsessivo, a começar pelo lado de quem fora preterido, Heathcliff, cujo perfil também denota não um homem guiado por um mínimo senso altruísta no amor que deseja o bem sem exigir correspondência, tampouco o desfrutar da presença, mas por um espírito de renegado que logo se converte em vingativo ao retornar materialmente prospero ao lugar que saiu à margem, e assim o faz para compensar a ira, ficando espiritualmente ainda mais empobrecido sob um compêndio de ressentimentos pelo passado e pela disputa do presente que insiste em travar pelo antigo afeto perdido. Catherine, entendo, não passa de um objeto de seu desejo.
A resposta de Catherine me passou também um sinal de pesar perpetuado com certo toque de consciência de que está sob um constante juízo na forma de quem lida com frustrações autoinfligidas, e se vê mediante um comportamento de Heathcliff que é típico de quem se move por uma doentia paixão, impulsionado por uma necessidade de nutrir a si mesmo, como objeto de satisfação estritamente pessoal, e não por um sentimento de quem cresceu em vários sentidos. Heathcliff está preso na infância de seus sentimentos frustrados, um problema que, se fosse ressignificado pela maturidade, poderia tê-lo tornado minimamente homem sereno diante da realidade, no entanto, materializou seu egocentrismo quando decidiu se casar com Isabella como forma de retroalimentar o espantalho de uma ferida do passado em modo de provocação.
Por fim, pensei, quantos jovens terminam perdidos como Heathcliff, presos a desolações afetivas que provocaram feridas que se perpetuam, incapazes de buscar uma superação, reféns da imaturidade persistente que os acompanha ao longo da vida.
5 Replies to “14/12/2025 18h39 O Morro dos Ventos Uivantes. Capítulo XIII”