Imagem: flickr oficial

Olavo de Carvalho

“Nem as ideias de Capra nem as de Gramsci necessitam de refutação.”

Obra: A Nova Era e a Revolução Cultural. III. Vide Editorial, 2014, Campinas. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo/Campinas, 1947-2022)

Olhou-me atravessado como se eu fosse um bolsonarista. O ano era 2018 e logo percebi que tinha forte aversão ao filósofo brasileiro. Convenhamos, Olavo de Carvalho passou a vida provocando e bem distante de gozar uma boa reputação no dito “ambiente acadêmico” e fazer referência a ele como “filósofo” a um mestrando de sociologia quase encerrou abruptamente o que se revelaria como uma boa conversa.

Superado o pequeno mal-estar, o jovem filiado a um partido de esquerda foi direto ao ponto e apontou este trecho (p. 92) para demonstrar como Olavo de Carvalho se contradizia “grotescamente”, e não como os quais acusava do mesmo problema, ao apontar que as referidas ideias não “necessitam de refutação” enquanto escreveu em mais de 200 páginas “ataques repletos de espantalhos”.

Não ter lado nesse tipo de conversa é uma vocação e considerei o argumento válido para ser refletido, mas ponderei a sutileza da afirmação de Olavo, pois está seguida de um “Sua interpretação ordenada e clara já vale como refutação”.

Não tanto sobre Fritjof Capra, mas, entendo, em relação ao maior destaque ao filósofo Antonio Grasmci no Brasil, penso: qualquer análise com o intuito de ser séria, precisa se desarmar do que chamo de “espírito de crente”, no sentido que me é familiar: o tipo fundamentalista, fechado com suas opiniões de maneira que se torna incapaz de colocá-las em discussão, problema facilmente observável entre os que odeiam o italiano, assim como os que o tem em grande apreço. Infelizmente, quando terminei de ler A Nova Era e a Revolução Cultural, não consegui ver esse desarme em Olavo, o que não me surpreendeu, e também não me desestimulou a continuar na apreciação da trilogia, empreendimento iniciado (2007) um pouco depois do início de minha fase “austríaca”, assim como não o enxerguei também no prezado interlocutor, ambos assim um tanto pautados exageradamente por sentimentos funcionais em favor de suas crenças políticas.

Olavo de Carvalho abre este capítulo com uma afirmação de juízo de valor bem contundente (p. 89), logo se distanciando do espírito da “interpretação ordenada e clara” que, à mon avis, envolve muito cuidado com adjetivos. Este detalhe que mencionei parece ter chamado a atenção do colega com simpatia, que logo se desfez quando afirmei que, apesar do primeiro parágrafo, a análise que Olavo apresenta em seguida, por oito pontos (p. 89-91) é um resumo de rara precisão cirúrgica sobre os problemas fundamentais da Nova Era e do “intelectual coletivo”, sobretudo quando menciona no item seis Russell Chandler (p. 91). e no seguinte suscita a questão da dissolução da “autoconsciência reflexiva e crítica” em favor de “ilusões coletivas” (p. 91). Sobre este ponto, pensei no fascismo, um extremismo de direita, como exemplo, assim como em sistemas socialistas, sobretudo os mais avançados, no extremismo de esquerda.

O que eu quero dizer é que Olavo de Carvalho é um tipo de autor que é preciso ter muito cuidado com o filtro a ser adotado, pois está permeado de sentimentalismos ideológicos de direita, em alguns casos, extremos, isso para não perder a parte bem qualificada de seus argumentos; em outras palavras, ler Olavo é um exercício trabalhoso por exigir um contínuo estado de atenção semelhante ao dito popular do máximo alerta para não jogar o bebê com a água do banho.

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