Imagem: Planeta de Livros

Jack El-Hai

“Kelley lutava para conciliar a empatia de Göring por outras espécies com sua crueldade em relação a um imenso número de seres humanos. […]”

Obra: O nazista e o psiquiatra. 4. Em meio às ruínas. Planeta de Livros, 2025, São Paulo. Tradução de Solange Pinheiro. De Jack El-Hai.

Parei para meditar nesta parte da obra acerca da empatia por pets (p. 76) do sucessor de Hitler, prisioneiro de Nuremberg, primeiro na linha de comando, questão que o psiquiatra Kelley tentava conciliar.

Como alguém que participou do Holocausto e “liderava sangrentos expurgos de seus inimigos, declarando que tinha o direito de executar oponentes sem o devido processo”, ocupava-se em promover legislação para proteger cães e gatos (p. 77)? O primeiro ponto que que pensei foi na diferença entre um político se empenhar em defender determinada pauta e o que realmente compõe seus valores reais, íntimos, como pessoa. Não são necessariamente a mesma coisa. Um político pode defender “saúde pública” diante de seus eleitores, mas na verdade o que acredita mesmo é no serviço privado; pode defender ideias socialistas, mas em seu foro íntimo entende que o melhor, pelo menos para seus negócios, é a economia de mercado, e vice-versa.

Göring além de militar, foi um político cujo partido chegou ao poder não com a força psicológica da imagem da farda, mas com uma pauta atraente, sedutora, repleta de progressismo que conquistou um público diversificado, e aqui penso em um registro que fiz da obra 1931: Debt, Crisis, and the Rise of Hitller [650]:

Os nazistas aplicaram ferramentas avançadas de propaganda, evitavam questões da dívida pública e da austeridade mediante um eleitorado que enfrentava inflação nas alturas, desemprego e endividamento. Foram às áreas rurais onde o sentimento de descaso era ainda maior e conseguiram mais de 50% dos votos. Partiram também em busca dos que votavam pela primeira vez e conquistaram até mesmo o apoio do eleitorado feminino, até então historicamente relutante ao suporte para partidos radicais (p. 79).

Hitler angariou um capital político baseado em um perfil de eleitorado variado, o que, de certa forma, ajudou a camuflar o regime que estava arquitetando para a Alemanha: nas celebrações eram comuns famílias com suas crianças, jovens, além de estudantes, trabalhadores (p. 81), todos a formarem uma atmosfera de união patriota em torno de expectativas de uma salvação econômica (p. 81).

Todo político para ser bem sucedido, em muitas ocasiões, tem que saber representar; é basicamente um ator se fazendo parecer como defensor de alguma causa para conquistar apoiadores e reforçar a devoção deles. Então, o fato do mais famoso prisioneiro de Nuremberg ter promovido legislação para proteger animais vivos em operações para fins de pesquisa, enquanto entrou para a história por ter dizimado milhões de judeus, não quer dizer, necessariamente, que ele tivesse mesmo empatia por pets, nem mesmo detestasse judeus. Política é uma atividade civilizatória que pode, paradoxalmente, ser exercida por muitos sociopatas, e aqui penso no diagnóstico dado pelo psiquiatra Kelley acerca do narcisismo patológico de Göring, e quem convive ou já conviveu com narcisista deste tipo, sabe do que são capazes na dissimulação enquanto arquitetam suas perversidades.

650. 17/03/2026 20h00

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