Imagem: IEA USP

“A agonia da modernização não é uma utopia que matou um passado ‘lindo’, é uma distopia progressista. […]”
Obra: A era do niilismo. 2. Ivan Turguêniev: Bazárov, o jovem que tem o luxo de não crer em nada. Globo Livros, 2021, São Paulo. De Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé (Brasil/Pernambuco/Recife, 1959).
Comecei a apreciar esta obra de Pondé ainda na livraria Leitura do Rio Mar, que curiosamente estava lotada, o que me fez ir a um banquinho do shopping. Enquanto esperava as meninas, queria ver como estava minha capacidade de concentração em um ambiente com tantos elementos de ruído. Um pouco depois sentou ao meu lado um apreensivo senhor trajado com o manto da cobra coral. Ele estava agitado com o celular, de maneira que se tornou um tanto diferente a minha experiência literária. Aliviado com a classificação dramática do nosso Santinha, o simpático senhor de Cabaceiras (PB) – a passeio no Recife -, pediu-me desculpas e, curioso com a capa do livro, disse:

– O sujeito (da ilustração) até parece que torce pelo nosso Santinha né? (risos), mas… o que é esse tal de niilismo?
Fiz um breve comentário; sua esposa chegou e o arrastou com as sacolas de compras e assim lá se foi feliz da vida meu efêmero interlocutor a falar que não é niilista porque crê em Deus, é devoto de Nossa Senhora das Dores e é tricolor do Arruda.
Pondé abre o capítulo dois a mencionar o que me foi familiar com a leitura de Pais e filhos de Truguniev, além de que me fez pensar imediatamente no quanto a literatura russa do século XIX me fascinou na juventude sobre os temas do “conflito de gerações” (p. 21) e da tristeza que caracteriza a modernidade em meio ao esvaziamento via niilismo. Penso aqui em “modernidade” pelo menos em seu nascedouro e infância, em um processo de abandono de antigos credos e tradições enquanto encarnada e tipificada na figura do jovem (p.22) cujo impacto na Rússia burguesa foi mais intenso e rápido em relação à Europa ocidental (p. 23), conectando-se com o que se aponta no trecho (p. 24) mediante o que o autor conota como um “fetiche” em relação ao jovem que “sepultará qualquer chance de se envelhecer, guardando em si alguma dignidade ontológica” (p. 24).
O desprezo pela sabedoria preservada pelos pais, em especial quando penso em termos de tradições e crenças religiosas, e o deslumbramento com o progresso o qual entendo ser uma causa para o drama do “vazio da tecnologia”, anda acompanhado pela arrogância típica do ser jovem; eis uma questão em que me ocupei com mais entusiasmo, por ironia, quando comecei a ver o desmantelamento da moral tradicional discorrido na filosofia de Nietzsche enquanto entendia ser um fenômeno bem mais complexo do que aparentava ser. O romance que Pondé se ocupa em desenvolver o tema é um marco nesse momento crítico da nossa espécie diante dos saltos tecnológicos e nas reações naturais da velha ordem, a produzir então o jovem que “ainda mal se conhece, mas já despreza o que vem antes dele” (p. 26), em um conflito dinâmico e ainda mais mortal no cotidiano (p. 27). O jovem protagonista no romance é um reflexo do sujeito psicologicamente instável, inseguro, imaturo e apaixonado (por Anna Serguêievna), a desprezar o amor para morrer com ele (p. 27).
Entre as tentativas de soerguer esse pilar, a filosofia se entranhou com Hegel (p. 30) e o niilismo enquanto fenômeno se tornou mais sofisticado, entendo, na literatura russa, e aqui penso no “Se Deus não existe, tudo é permitido”, do niilista personagem Ivan Karamazov (p. 31) que se conecta ao que Bazárov é definido como o jovem no luxo de não crer em nada (p. 33), quando está longe de ser “chique”, pois se trata de um doente, infeliz, com problemas de relacionamento, raivoso, como define Pondé e, penso, um sujeito que do fascínio de recusar suas raízes, cai no abismo de transtornos mentais que os apetrechos tecnológicos são incapazes de curar.
E no final da leitura pensei no senhor tricolor que se foi, tão contente, não sendo mesmo niilista, com suas três referências que encontrou que o distanciam desse vazio que o moderno tem para nos oferecer.