Imagem: ABL

Olavo Bilac

Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas . . .

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Obra: As Velhas Árvores. Em Antologia Poética. L&PM, 1997, Porto Alegre. De Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1865-1918).

Non, je ne regrette rien [505]

A eternidade me encontrou,
e serei transformado,
a sentença foi proclamada,
no trânsito e julgado [506] estou.

Non, rien de rien, Non, je ne regrette rien [507]

Agora podes me chamar de idoso.
no que, por enquanto, e derradeiramente
celebro rindo, pois estou indo,
meu pregador amigo e “ficoso” [508].

Non, rien de rien, Non, je ne regrette rien

Vivemos em uma eternidade
e a morte é uma ilusão, não existe,
há apenas mudança de estado,
passagem à outra realidade [509].

Non, rien de rien, Non, je ne regrette rien

Nesta vida se alcançares a minha idade,
que estejas como as Árvores de Bilac; [510]
aos cansados dando sombra, consolo e
sendo poço de serenidade.

Non, rien de rien, Non, je ne regrette rien

Lembra-te, nessa existência poderás ter
pela velhice a beleza maior da alma,
se tiveres na vida bem alcançado
o que há de melhor em teu ser.

505. Licença poética em primeira pessoa da essência da conversa que resultou na maior lição que recebi sobre a morte, de um leito de hospital. Foi no final de abril/2007. Ver 24/09/2025 22h04.

506. Em referência ao dito pelo meu interlocutor: “agora estou no trânsito e julgado só esperando a execução da sentença (falou no juridiquês familiar) e sei que nem preciso pedir a você para mentir para mim”. O “mentir” está em referência ao que lhe irritava no leito: familiares que tentavam iludi-lo sobre a sua situação de terminal.

507. Após a conversa, fiquei alguns minutos perplexo no estacionamento do hospital, quando me veio em mente esta canção de Edith Piaf, após pensar no que meu interlocutor dissera sobre a importância de se viver de forma autêntica cujo preço inevitável é o desapontamento alheio.

508. Apesar do contexto de uma visita a um paciente terminal, a conversa foi inteiramente bem humorada e um dos exemplos se deu na classificação de “ficoso” que me foi dada em contraste com “idoso”. Meu interlocutor fez uso de um dos sentidos lúdicos para o termo: “o que está indo embora, partindo”. O “pregador” sou eu, em alusão ao hábito do interlocutor em me provocar usando este termo.

509. Esta ideia de eternidade amadureci alguns anos depois e a inseri no poema por conta da crença cristã tradicional do meu interlocutor acerca da morte como rito de passagem.

510. Ouvi de meu interlocutor que a juventude, em seus momentos de alegria e tristeza, prazer e dor, serve também de preparação para a velhice. Quando a juventude termina, não se deve lamentar e sim aproveitar as lições dela extraídas para a derradeira fase da vida, que deve ser marcada por enlevo espiritual (a última estrofe faz referência) e serenidade para inspirar as novas gerações, foi quando pensei no poema As Velhas Árvores, de Olavo Bilac, não citado durante a conversa.

2 Replies to “31/12/2025 08h00 As Velhas Árvores. Em Antologia Poética”

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