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“Também descobrimos que o poema de Rumi, ‘A Hospedaria’ (The guest house), traduzido por Coleman Barks e também utilizado por Segal e colaboradores (2022), ajuda os clientes a imaginar uma maneira diferente de responder às suas experiências emocionais. […]”

Obra: A prática da terapia cognitivo-comportamental baseada em mindfulness e aceitação. Capítulo 6. Estratégias Baseadas em Mindfulness e Aceitação. Artmed, 2010, Porto Alegre. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. De Lizabeth Roemer e Susan M. Orsillo.

Imagem: Recanto do Poeta

Rumi

Em The Essential Rumi. Castle Books, 1997, New Jersey, p. 108. Traduzido para o inglês por Coleman Barks. De Maulana Jalaladim Maomé (Império Corásmio/Vakhsh, 1207-1273).

Eis uma sabedoria oriental em forma de versos que talvez possa deixar perplexa a mentalidade ocidental, educada para se anestesiar do sofrimento.

THE GUEST HOUSE

This being human is a guest house.
Every morning a new arrival.

A joy, a depression, a meanness,
some momentary awareness comes
as an unexpected visitor.

Welcome and entertain them all!
Even if they’re a crowd of sorrows,
who violently sweep your house
empty of its furniture,
still, treat each guest honorably.
He may be clearing you out
for some new delight.

The dark thought, the shame, the malice,
meet them at the door laughing,
and invite them in.

Be grateful for whoever comes,
because each has been sent
as a guide from beyond.

No poema, o ser humano é visto como uma “casa de hóspedes”, sempre passivo a recepcionar emoções que podem se apresentar na forma de “uma alegria, uma depressão, uma mesquinhez, uma consciência momentânea”. E então, o que fazer com esses visitantes, que podem ser inesperados e desagradáveis? Como lidar com experiências emocionais que desafiam a aceitação? Repulsá-las? Ignorá-las? Distrair-se para não senti-las na profundidade em que se propagam?

Torno a Rumi:

Receba e acolha a todos!
Mesmo que sejam uma multidão de tristezas,
que varram violentamente sua casa,
deixando-a vazia de móveis,
trate cada hóspede com honra.
Ele pode estar preparando o terreno
para uma nova alegria.

Este poema me remete à mesma perspectiva de acolher o próprio sofrimento, característica dos ensinamentos budistas de Thich Nhat Hanh em Sem lama não há lótus:

Inspirando, eu sei que há sofrimento.
Expirando, eu digo olá para o meu sofrimento
 (p. 24).

Com emoções que trazem desconforto, seja fraterno [562]; “não lute contra e sim trate-as ‘com muita ternura’ (p. 28).

E torno a Rumi:

O pensamento sombrio, a vergonha, a malícia,
receba-os à porta rindo
e convide-os a entrar.

Seja grato por quem quer que venha,
pois cada um foi enviado
como um guia do além.

Acolher o que desagrada emocionalmente “pode estar preparando o terreno para uma nova alegria” e, neste ponto, torno ao que registrei na experiência [562] de leitura de Thich Nhat Hanh sobre transformar o sofrimento em adubo para crescimento espiritual dentro da casa que é o nosso corpo:

“No sofrimento é à ‘casa do nosso corpo’ que devemos ir, após interrompermos o acelerado modo do cotidiano. “Se deixarmos o sofrimento se manifestar e simplesmente se apossar da nossa mente, podemos ser rapidamente dominados por ele” (p. 28), adverte, mas com a ‘respiração consciente’, podemos iniciar um diálogo interior e fraterno com ele, remetendo o que nos provoca grande desconforto para a ‘energia da consciência plena’ que cuidará do sofrimento e nos poupará de sermos subordinados a ele (p. 27), enquanto aprendemos pela contemplação profunda a transformar o seu ‘lixo’ orgânico em adubo, ‘que por sua vez, pode se transformar em muitas flores belas de compreensão, compaixão e alegria’ (p. 29)”.

562. 17/12/2025 20h00

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