Imagem: Portal da Literatura

“E, em vez de ficar ansioso, procurei fazer coisas mais interessantes, e peguei um livro para ler.”
Obra: Ansiedade. Como enfrentar o mal do século para filhos e alunos. 3. Dois jovens ansiosos: uma vida sem tempero. Saraiva, 2015, São Paulo. De Augusto Jorge Cury (Brasil/São Paulo/Colina, 1958).
Impressionantemente essa frase, dentro da narrativa, abriu um caminho de recordações sobre o universo mais precioso e sedutor que conheci depois da infância.
Lembrei-me de uma imagem aos dez anos, da casa de um amigo onde havia uma sala de livros. Ele morava em frente à minha casa e eu ficava olhando um discretíssimo senhor, o pai dele, tranquilamente lendo, encostado na janela, às vezes deitado em uma rede. De alguma forma era uma cena que me fascinava.
Um amigo do ginásio me convidou para conhecer em sua casa o então novíssimo microcomputador com processador XT e o IBM PC-DOS. Todo o deslumbramento no brilho de meus olhos se transferiu para o compartimento ao lado quando a porta foi aberta e vi um punhado de livros abertos sobre um piso de taco; a mãe dele, uma professora universitária, estava cercada por três paredes formadas por uma estante de livros, profundamente concentrada à semelhança do que estava acostumado com o meu vizinho leitor. Certamente estava na casa dos quarenta e poucos aquela senhora deitada no chão com uma mão no queixo e outra folheando páginas; o jeito de ser jovial, simples, livre e leve me lembrou as meninas da minha sétima série.
Foi naquela fase da adolescência que, por instinto, dei conta de que não podia me faltar livros… na bolsa, na mochila…
Aos quinze, vivendo sob os engarrafamentos do Recife em coletivos lotados e abafados a caminho do que fora meu primeiro emprego, os livros me ajudavam a mergulhar em outro universo. Quando me despedi da adolescência, passei a usar uma mala tipo 007 para armazenar disquetes com rotinas de programação; ficavam em caixinhas e a mala me era mais útil mesmo para portar livros. Na falta do que fazer, a leitura preenchia o vazio.
Lembrei-me também do que dissera um professor de literatura no início do segundo grau:
– Ler para mim é outra forma de respirar – afirmou enquanto explicava a importância das vírgulas, para depois sugerir a prática da leitura como forma de “lapidar o espírito”.
Foi somente depois dos 30 que entendi melhor o que fazia desde menino quanto ao que descobri de sentido terapêutico na atividade de leitura. Quanto a isso, estava a pensar sobre quando hoje ainda vivo aquele adolescente em mim ao detectar ociosidade, algo mais comum do que muita gente pensa, e adicionado pelo que aprendi sobre minha própria ansiedade, então recorro simplesmente a esse velho e salutar recurso que me acalma, acolhe e inspira, sobretudo recentemente, em dias marcados por muito chá de cadeira que tenho levado em compromissos presenciais, naquelas recepções bem arrumadas e sem graça, enquanto percebo a imunidade que um livro pode dar ao humor enquanto encontro ânimo à minh’alma peregrina que brinda uma boa leitura.
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