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por Klara Ziegler (1844-1909)
“[…] Atribuía-se a fecundação das mulheres aos ventos, aos rios ou à influência de espíritos. […]”
Obra: Medeia: A Redenção do Feminino Sombrio como Símbolo de Dignidade e Sabedoria. Segunda Parte: Os graus da transformação do mito. Os rastros da velha deusa. Cultrix, 2017, São Paulo. Tradução de Margit Martincic e Daniel Camarinha da Silva. De Olga Rinne (1946-2011).
A experiência de leitura desta obra se revelou uma sequência de flashes de colóquios de antropologia, religiões primitivas e polêmicas onde ganhei rótulos quando me deparava com cristãos fundamentalistas, via de regra, imbuídos em tratar mitos da criação como objetos de ciência.
Quanto ao trecho, à procura de traços de sociedades matriarcais, em meados do século XX antropólogos que pesquisavam tribos sem contato com a civilização, constataram que era desconhecida em várias culturas a geração entre união sexual e procriação (pp. 48-49). Contudo, nessas sociedades matriarcais onde o papel do agente masculino não fazia menor sentido aos cultos de fertilidade, também em relação ritual com o entendimento da provisão de alimentos, a partir do momento em que se tomou consciência da participação sexual do macho no processo de geração dos filhos, o homem passou a ser visto como “símbolo da fecundidade e, no mito, o amante e esposo da deusa” (p. 49).
Nessas sociedades predecessoras ao patriarcalismo, havia a percepção da terra como uma mãe doadora de frutos, atrelada a capacidade da fêmea na reprodução da espécie (p. 45), sem o conhecimento de como se dava de fato o processo de concepção, atribuindo-o a forças naturais e espirituais (p. 48), consolidando assim um entendimento do protagonismo feminino sob a primazia do ápice no religioso cuja sacerdotisa representava a divindade que, naquele estágio era cultuada apenas como entidade feminina. Era um âmbito agrícola, não havendo espaço para a ação do masculino (p. 45), cuja figura da deusa Medeia tinha muitas facetas na perspectiva de “Grécia clássica” quando se falava sobre um passado distante (p. 44) e aqui penso o quanto o mito da criação no Gênesis é tardio quanto ao que dispõe sobre a revelação da união homem-mulher na reprodução (Gn 1.28).
No entanto, não foi apenas essa percepção do papel do macho na reprodução que marcou a passagem do matriarcal para o patriarcal. O desenvolvimento das primeiras tecnologias, a produção de bens e o enriquecimento tornaram as guerras de conquista um empreendimento politicamente útil (p. 62), forçando o desenvolvimento de casta de guerreiros nas necessidades de se defender das ameaças externas (p. 62), onde foi sendo formada uma aristocracia militar masculina (p. 63), aponta Olga Rinne, enquanto se reduzia a posição cultural e social da mulher, algo que se deu por um longo processo de transição onde mitos femininos ainda resistiam, tal como o que atribuía “a invenção do arado, do navio e de todas as artes mecânicas à deusa Atena” (p. 63)
Para o tempo patriarcal em que me situo, penso o quanto deve ser surreal uma era remota onde a figura da mulher estava no topo pela crença em divindade impregnada no papel da sacerdotisa que impunha rituais de sacrifício e cura (pp 50-55), onde exercia enorme poder, sobretudo pelo aspecto religioso, mediante crença no sangue tendo relação com a magia que nele se gerava a vida, em ritos que visavam garantir a fecundidade, força atrelada ao papel reprodutor da fêmea ligada à terra, e por isso, tinha que ser derramado “para renovar magicamente a fecundidade” (p. 46), em sacrifícios onde o agente masculino era passivo, tais como o do rei sagrado (p. 52), a denotar um estágio ainda mais primitivo que o caracterizado pelo sacrifício de animais.
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