Imagem: ALJAZEERA

“[…] Para mim, ser comunista representa colocar os valores humanos universais acima de todas as coisas.”
Obra: Gorbatchóv por ele mesmo. Entrevista a Time em 04/06/1990. As ideias de um líder. Edição da Martin Claret, 1991, São Paulo, formato físico. De Mikhail Sergeevitch Gorbachev (URSS/Rússia/Privol’noe, 1931).
Foi na primavera de 1991 que adquiri na Livro 7 um exemplar desta obra. Em duas noites consumi as 171 páginas.
Tinha 16 anos, estava confuso em torno de minhas crenças políticas desde a leitura da Perestroika, no início de 1990 [561]. Fui um crente no socialismo e acreditava que a humanidade poderia ser salva do capitalismo rumo a outra crença ainda mais intensa que se alojava em meu coração: o comunismo.
Lembro-me de que meu saudoso pai (in memoriam, 2007) tentava me transmitir o que entendeu acerca dos benefícios do regime militar 64-85. Quando percebi que ele se irritava bastante com quem se posicionasse em favor de Cuba e da então União Soviética (URSS), decidi omitir minha crença socialista. Não queria que o meu velho, amando-me tanto do seu jeito, ficasse decepcionado ao saber que seu filho (se pudesse) teria votado em Lula em 1989 e, por influência de um professor de história do ensino médio, visitava desde 1991 um diretório acadêmico da UFPE para ouvir um grupo de estudantes e militantes partidários de uma crença que ele tanto enojava. Evitava conversar sobre política com ele e escondia do alcance de sua visão a edição de O Estado e a Revolução, de Lênin, e o clássico resumo de O Capital feito por Julian Borchardt, obras que tinha lido aos quinze anos.
Dei-me conta do meu precoce interesse por política entre 1983 e 1984, nas Diretas Já (não perdia as transmissões dos comícios) e em documentários sobre Cuba e a União Soviética pela TV Cultura, todos enviesados em favor de uma crença que começava a ser semeada e que se consolidaria com leituras até 1989. Em 1985 acompanhei a transmissão da vitória de Tancredo Neves sobre Paulo Maluf voto a voto no Congresso Nacional. Em suma, fui um adolescente que não perdia uma edição do Roda Viva que tivesse algum pensador de esquerda, ou uma aula televisiva da Marilena Chauí, enquanto torcia para a URSS, Cuba e qualquer país do bloco socialista nos Jogos Olímpicos, vibrava quando os Estados Unidos perdiam, mas gostava também de ficar acordado até tarde para assistir ao Jornal da Globo apenas para conferir a breve crônica de Paulo Francis, correspondente em Nova Iorque já naquela fase de crítico do socialismo, pois algo me fascinava em seu modo de raciocinar. Lembro-me que no ginásio, fazia as meninas (gostava mais de estar com elas do que com eles) rirem imitando o espirituoso jornalista.
Na minha inocência, desde os quatorze anos eu via a democracia como ideal que se completava com o socialismo (em certo sentido, sim, porém como um instrumento para outra intenção nada democrática) e não conseguia discernir o que de fato acontecia em Cuba e nos demais países onde um modelo socialista tinha avançado. Para mim, o mundo cruel estava no meu lado, o “capitalista”, o “americanizado”, e o paraíso da justiça social na terra estava distante, lá no Leste. Havia apenas uma ilha a refleti-lo bem ao lado do malévolo Estados Unidos.
Se eu tivesse lido a frase (p. 127) de Gorbachev entre 1983 e 1989, certamente me empolgaria em sua defesa, mas quando me deparei com ela em 1991 algumas coisas tinham mudado; eu não estava mais tão convicto em relação ao que hoje entendo como crença nuclear de adolescente. Começava a perceber lentamente que algo de muito errado havia no ideal socialista sob o objetivo, muitas vezes subliminar, do comunismo.
Os primeiros sinais de colapso da União Soviética percebi lendo a Perestroika e, refletindo também sobre as crônicas de Paulo Francis, comecei a confrontar meu entendimento, mesmo frequentando o diretório acadêmico. As narrativas que ouvia já não me impactavam tanto, embora ainda acreditasse em um “socialismo democrático”, com tolerância partidária e à propriedade privada de alguns meios de produção. Lembro-me que eu acabei me alinhando com um grupo de estudantes que faziam perguntas inconvenientes aos líderes do diretório, que passaram a argumentar que o regime da URSS deturpou o “verdadeiro socialismo”, além de deixarem uma pergunta que até hoje exploram em neófitos e esquerdistas caviar que terceirizam o tratamento do complexo de culpa que possuem:
Em qual país do mundo capitalista será possível alcançar o que é feito em Cuba, com todas as crianças garantidas em uma boa escola, bem alimentadas e sem saberem o que é viver na rua?
Comecei a desconfiar em 1992 que o diretório poderia ser uma espécie de igreja fundamentalista de ateus, onde o messias é Marx, com a Bíblia sendo O Capital e O Manifesto Comunista e o deus… bem… o deus deles é o poder puro, de determinar o que querem à sociedade.
Contudo, a pergunta parecia silenciar os mais críticos enquanto apenas significava para mim mais uma variável no meio de uma complexa situação de crise onde se fazia de conta que diversas violações não aconteciam na mesma Cuba e em países de regime socialista mais avançado que expressavam tirania, corrupção, privilégios indecorosos de elites da política, crimes ambientais e tudo o que o mais seus defensores afirmavam combater.
A crença nuclear de adolescente seria desmontada de vez entre 1994 e 1995, por influência de outro professor, que se tornaria o meu mentor à época.
561. 26/02/2022 16h10
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