Imagem: Letras UFMG

– Trata-se de uma vaga de carteiro para a Ilha Negra […] o negativo é que só tem um cliente.
– Só um?
– Pois é. Na enseada todos são analfabetos. Não conseguem ler nem as contas.
– E quem é o cliente?
Obra: O carteiro e o poeta. 1. Record, 2023, Rio de Janeiro. Tradução de Beatriz Sidou. De Esteban Antonio Skármeta Vranicic (Chile/Antofagasta, 1940-2024).
El Cartero de Neruda foi publicado originalmente (1985) sob o título Ardiente paciencia. Quando assisti (1996) ao filme Il Postino (1994), não conhecia o livro. Um pouco antes tinha escutado uma fascinante aula estilo resenha e sem spoiler. Fui então à lendária livraria Livro 7 para comparar os dois finais e percebi o quanto são distintos e intrigantes.
Pensei em quão belo é este romance, aparentemente despretensioso, visto como um “subproduto” de algo não intencionado em meio a um “fracassado assalto jornalístico a Neruda” na Ilha Negra, assim afirma o autor que soa um tanto desacreditado de si à época da produção, quando se reconhece como “preguiçoso” (Prólogo).
Identifiquei-me de imediato com Mário Jimézes; o enredo de um pescador que se reinventa como carteiro e se aproxima de Neruda me seduziu. O poeta havia pouco tempo entrado em meu universo de extraordinários e o fato de seu longo histórico de político comunista não me importou. Ideologicamente eu tinha abandonado a crença no estágio intermediário do comunismo (mais conhecido como “socialismo”), no entanto, a arte em mim costuma vencer barreiras que superam questões de política e religião.
Il Postino marcou um tempo de descobertas literárias e “sessões cult”. Enquanto era bombardeado com autores que nunca tinha ouvido falar na vanguarda de uma sociedade de pensadores que frequentava, em paralelo, pela primeira vez pude ver, no ano divisor de águas de minha vida, o filme Cinema Paradiso (1988), cuja perplexidade diante de meu choro também me surpreendeu quando estava descobrindo um espírito retrô que tinha chegado para ficar. Consegui rever Sociedade dos Poetas Mortos (1989) um tanto recente, sendo mais para reviver boas recordações do final do ginásio. Naquele ritmo conheci Tootsie (1982) e Karmer versus Kramer (1979).
Nada foi mais excitante que ver na grande tela pela prima volta, Psicose (1960) em um sábado, e La Dolce Vita (1960) em outro, em uma distância sem escalas. Não foi possível rever Casablanca (1942), visto pouco tempo antes [544] em VHS por um inusitado convite de um grupo teatral na Boa Vista, nem pude conhecer Cantando na Chuva (1952). Lamentei também por não ter conseguido uma sessão para Lawrence da Arábia (1962). Quando perguntei ao funcionário do cinema se haveria alguma chance de um dia exibi-los, ele deu apenas um sorriso de quem queria dizer que eu estava pedindo demais.
Hoje há muita facilidade. Revi todos em streaming e incluir os que não tinha conseguido apreciar. No entanto, Il Postino é o que me remete a maior sensação de déjà vu porque me reconectou, desde então, com a ideia de que estar em um lugar tão afastado e seco de aptidão interativa por literatura de alto nível, como se dava naqueles dias tão corridos e no ambiente de TI em que trabalho até hoje, não impede de ter uma vida de poesia pronta para ser apreciada e isso depende tão-somente de um passo simples que une a existência com a experiência de leitura.
544. 26/12/2025 08h00
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