Imagem: S Metal

 Jessé de Souza

“A extrema direita cria a falsa impressão de expressar a rebeldia popular. […]”

Obra: O Pobre de Direita. A vingança dos bastados. 2. As raízes históricas da extrema direita no Brasil. I. A Construção do Pacto Antipopular e o Falso Moralismo da Corrupção. Civilização Brasileira, 2024, Rio de Janeiro. De Jessé José Freire de Souza (Brasil/Rio de Grande Norte/Natal, 1960).

Para Jessé de Souza, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, em relação ao que aponta no trecho desta Leitura, por isso, desde 2013, no Brasil, as demonstrações de rua se tornaram um espaço da direita, e não mais da esquerda (p. 57).

O fenômeno Bolsonaro não veio do vazio e abriu uma “caixa de pandora” para trazer algo já existente na sociedade brasileira, na visão do professor, que aponta esse tipo de revolta como um movimento de oprimidos “que desconhecem os motivos reais de sua opressão”, formando um “eleitorado cativo” por um “sentimento de pertencimento” sob “a violência da extrema direita como expressão de suas angústias e ressentimentos diários” (p. 58).

Sobre o que o professor aponta acerca da expressão de “angústias” e “ressentimentos diários”, lembrei-me de como os primeiros bolsonaristas que conheci muito me impressionaram pela impulsividade e pela paixão com que se envolviam como militantes em 2018. Empresários, líderes religiosos, pais e mães de família que, de repente, revelaram-se como indivíduos que estavam adormecidos e passaram a anunciar uma espécie de salvação que chamavam de “mito”, onde quem discordasse se tornava inimigo ferrenho. Percebi de imediato algo similar ao que normalmente observo entre petistas passionais em relação a Lula: o sentimentalismo exacerbado, a “messianização” do líder de estimação, a expressão rasa e precoce de ideais pouco depurados, quando não totalmente fora do conhecimento, sem coerência, em conceitos distorcidos subliminarmente pelos que os influenciam, tudo em um processo que camufla suas frustrações e seus recalques, além da radical intolerância ao antagônico, onde de um lado sobra acusação de “comunista”, e do outro, “fascista”, termos aplicados com uma maturidade que não passa do jardim da infância; eis alguns ingredientes que formaram o caldeirão de extrema violência na comunicação entre os dois lados que até hoje prevalecem no paupérrimo debate político brasileiro.

O racismo contra negros escravizados e seus descendentes é um tema muito caro ao professor, pelo que observei nesta e em outra obra: Como o racismo construiu o Brasil. Então Jessé de Souza liga o racismo ao fenômeno de crescimento do que aponta como “extrema direita” no Brasil. Primeiro diferencia o racismo brasileiro do que ocorre nos Estados Unidos onde, entende, o ianque ser mais trabalhado de forma explícita, enquanto no âmbito brasileiro se trata de um racismo “cordial”, composto pelos que fingem que não são racistas (p. 58).

Logo em seguida o professor aponta que o racismo explícito no Brasil foi combatido na era Vargas, sob inspiração do “bom mestiço” em Gilberto Freyre, quando se disseminou para o mundo a ideia do país do samba e do futebol praticado por negros (p. 59). A leitura que o professor faz do varguismo. neste ponto da obra. soou-me curiosa quando penso que Vargas encabeçou um fenômeno um tanto aproximado do fascismo. Segui no raciocínio do professor, que menciona a obra Raízes do Brasil, de Sergio Buarque, associando-a ao elitismo que seria de um “manifesto liberal” contra o varguismo, sob uma roupagem de crítica social que criminalizou o Estado (p. 60), promoveu confusão no discernimento sobre o significado da privatização, em favor do verdadeiro núcleo do capitalismo que culminou em uma “jabuticaba brasileira” saboreada entre intelectuais que pensam ter descoberto o Santo Graal (p. 61). Aqui percebi que o estilo provocante e metafórico do autor me apraz.

A elite brasileira composta por brancos de origem europeia, na medida em que se incomodava com a promoção de um Brasil atrelado às raízes raciais africanas, ainda no contexto do varguismo, atuou em favor de seus próprios interesses para conquistar o Estado e estigmatizar o povo, expandindo o racismo para o nível cultural (p. 62), criando uma cultura de golpes de Estado quando uma liderança popular a superava, enquanto desmoralizava moralmente as classes populares, abrindo espaço para o “branquinho da elite” se esconder como representante da moralidade pública (p. 63). Penso que não é necessário fazer muito esforço neste ponto para ver o longo e interessante caminho aberto pelo professor para associar essa elite ao que entende por extrema direita no Brasil.

Algumas questões que deixei para posterior reflexão:

Movimento de direita pode ser popular? Ou é prerrogativa da esquerda?

O que dizer do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha, que alcançaram altíssimo engajamento na população quando estiveram no auge?

O que definir sobre o amplo apoio dado a ditadura militar no Brasil, especialmente de seu início até o “milagre econômico” no início dos anos 1970?

Seriam ou não fenômenos de movimentos populares na política?

O varguismo que ajudou o preto a ser valorizado no Brasil, com toques de nacionalismo, não foi o mesmo da intolerância radical contra opositores ideológicos, sobretudo comunistas?, e acrescento:

O varguismo foi uma ditadura?

A elite econômica capitalista atua apenas em movimentos de direita ou de extrema direita, ou será que pode ser observada apoiando grandes movimentos de esquerda?, e aqui penso também em usineiros tradicionais de minha região que dão suporte a candidatos de esquerda de grande envergadura. Muitos até se tornam ministros de Estado.

Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *