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Søren Kierkegaard

“Devemos despedaçar o eu, para nos tornarmos nós mesmos […]”

Obra: O Desespero Humano. Primeira Parte. Livro III. Personificações do desespero. Capítulo II. O desespero sob a óptica da categoria da consciência. 2o. Desespero quanto ao Eterno ou de si mesmo. Martin Claret, 2003, São Paulo. Tradução de Alex Marins. De Søren Aabye Kierkegaard (Dinamarca/Copenhague, 1813-1855).

Eis o desespero no que se valoriza no âmbito temporal (p. 59), penso, em anseios que vertem ao que não se realizou ou na expectativa sobre o que não poderá realizar. Relaciona-se com o que o eu define em sua consciência acerca das próprias limitações ou fraquezas, mediante vicissitudes da vida, fluindo a um desesperar-se em detrimento da fé (p. 60).

Volto-me aqui aos termos “desespero do futuro”, no jovem, e “desespero do passado”, no idoso, que são a mesma coisa na visão de Kierkegaard. O jovem receoso quanto ao seu futuro enfrenta um desespero análogo ao idoso que teme abordar o próprio passado; o primeiro na expectativa de frustrações, e o segundo nas coisas em que se frustrou. Ambos se identificam nesse desespero quando não chegam ao que o filósofo define como “metamorfose do que há de eternidade no eu” (p. 58).

O desesperar-se não é algo somente passivo. Kierkegaard lembra que se trata de uma ação (p. 60.) O filósofo aborda o desespero em uma luta ulterior que pode se intensificar a uma forma superior de sofrimento, quando no enfrentamento do que penso da fluidez no introspectivo, na experiência do conhecimento sobre a própria dor, pode ocorrer uma transformação, e aqui penso no que o dinamarquês aponta sobre a “metamorfose”, de maneira que essa experiência o torne capaz de conduzi-lo à fé (p. 58).

O ser humano com certo entendimento de suas fraquezas, pautado sob a ideia de se dominar, pode então se tornar hermético no desespero para conservar os importunos da vida, tratando de evitar falar sobre seu eu mais profundo e vulnerável em favor de conservar uma imagem de vida normal, de um sujeito sociável, diria bem quisto. Kierkegaard cita na figura de um “marido tenro”, de um “pai solicito”, enquanto esse tipo disfarça ou evita expor seu eu mais perturbador, mas pode também, penso no que argumenta o filósofo, sentir uma necessidade de busca do isolamento, da solidão, diria algo mais ligado à solitude, quando ficar apenas consigo mesmo reflete um interesse de cultivo da espiritualidade (pp. 61-62).

Pensei o quanto esse desespero na consciência das próprias fraquezas é perene, mas pode ser um insumo para transformações, penso aqui no despedaçar-se a si mesmo para ir ao encontro de um conhecimento melhor sobre o próprio eu, processo onde a dor faz parte da cura; eis minha interpretação sobre o sentido do trecho (p. 63) desta Leitura.

Por fim, penso no que Kierkegaard aponta sobre o desespero parecer um mal que vem de fora, entendo, provocado por fatores externos, quando se enfrenta uma dificuldade que produz grande aflição, estresse extremo, na dor profunda de uma grande perda, em um infortúnio, por um grande temor de algo além do controle, mas para o filósofo, o desespero vem sempre do eu; é endógeno, e aqui penso que ele aponta sobre algo que se origina no foro íntimo, na definição que o ser desesperado atribui a si mesmo e na interpretação que dá às circunstâncias que está passando. Talvez por isso fico sempre com a impressão de que Kierkegaard ensaiou questões da psicologia moderna, não tendo sido apenas um filósofo proto-existencialista.

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