Imagem: Rascunho

Kurt Vonnegut 

É curto e confuso e estranho, Sam, porque não há nada inteligente a ser dito sobre um massacre. Teoricamente, todo mundo deve estar morto, para nunca dizer mais nada ou querer mais nada.[…]

Obra: Matadouro 5. 1.  L&PM Pocket, 2005, Porto Alegre. Tradução de Cássia Zanon. De Kurt Vonnegut Jr. (EUA/Indiana/Indianápolis, 1922-2007).

Ficção científica, abdução por ETs e viagem no tempo sob o cenário de uma devastação ocorrida na segunda guerra mundial… eis os elementos iniciais desta obra-prima.

Matadouro 5 ou A Cruzada das Crianças foi escrito com um toque de sutilezas que venceu o sentimentalismo exacerbado acerca de uma tragédia da segunda guerra. Satírico em ideias americanos, sob um apurado senso de humor cuja autenticidade de estilo literário me deixou comovido, além de não se tornar kitsch por lidar com temas de ficção científica que são bem populares e podem soar até comprometedores para uma abordagem a ser considerada séria para um romance.

A Cruzada das Crianças, o segundo título, originado da indignação da enfermeira Mary O’Hare com as guerras, que então veio a inspirar o autor (p. 22), é outra sutileza para ilustrar como a história da humanidade costuma ser marcada por conflitos movidos na massa dizimada de inocentes (p. 23), sob a promoção de quem supostamente lidera para o bem comum.

O trecho (p. 26) é o que me remeteu com maior sensibilidade ao significado do que aconteceu em Dresden, nos mais de 20 mil mortos nos bombardeiros e nas pilhas de corpos destinados à cremação nos entulhos do que sobrou da cidade, nas “toneladas de farinha de ossos humanos enterradas no solo” pela visão do narrador (p. 7).

O massacre de Dresden para nada serve além dos exemplos sobre a aptidão da nossa espécie para cometer aberrações, além de sensibilizar gerações acerca de quem promove massacres (p. 26). Se por um lado não é justo comparar com o Holocausto o que aconteceu naquela cidade na chuva de bombas que foi acometida, não é justo também simplesmente “esquecer”, ou diria melhor, desconsiderar que se tratou de um crime de guerra dos Aliados, juntamente com as bombas atômicas dos Estados Unidos lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

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