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Chris Giles

“There is no doubt that Prof Piketty’s source data is sketchy. […]”

Obra: Data problems with Capital in the 21st Century. Financial Times, Money Supply, May, 23, 2014. De Chris Giles.

Quando li este contundente e longo artigo do editor de economia do Financial Times, sobre o livro O Capital no Século XXI de Piketty, percebi o seu valor face às questões sobre as fontes e os critérios dos ajustes aplicados pelo professor francês, sobretudo no capitulo 10 em relação aos dados de países estudados: França, Suécia, Reino Unido e EUA. A publicação de Giles me estimulou a conhecer a obra de Piketty para promover uma debate em meu juízo entre a sua crítica e as teses do livro.

Eis a primeira questão: uma discrepância significativa entre a concentração de riqueza contemporânea, descrita na obra de Piketty, e aquela registrada nas estatísticas oficiais britânicas. Cita o economista francês a apontar que os 10% mais ricos da população britânica detinham 71% da riqueza nacional total, contudo, pondera Giles, a mais recente Pesquisa sobre Riqueza e Ativos do Office for National Statistics à época apontou esse índice em apenas 44%. A constatação o levou a verificar o que identificou como “uma série de questões e erros” no livro; “algumas questões dizem respeito a problemas de fontes e de definição. Alguns números parecem ter sido simplesmente inventados”, afirma, a reforçar uma ressalva importante da reavaliação dos dados que tirou como ponto de partida no livro: “Nenhum dos dados de origem que fundamentam o trabalho de Piketty é totalmente confiável”. Aqui vejo no exemplo que Giles apresenta em relação à planilha de desigualdade na França entre 1810 e 1960, com ajustes feitos por Piketty de forma que sugere uma manipulação de dados estatísticos:

“O Prof. Piketty não explica por que o ajuste é geralmente constante. Contudo, em um ano — 1910 —, não é constante, e a escala de ajuste sobe para 2% e 8%, respectivamente. Não há explicação”.

Giles até considera que, em um determinado caso, pode ter ocorrido um “simples problema no Excel” nos ajustes, mas pondera sobre arbitrariedades de Piketty, e as indica, por exemplo, na utilização de dados britânicos para o período de 1810 a 1870, além do uso “questionável” de uma média simples na construção de séries temporais de desigualdade relativa de riqueza para França, Suécia e Reino Unido, modo que deu a cada sueco “uma média de 100% da riqueza relativa”. Outro ponto que me chamou a atenção foi em relação a uma lista de dados elaborados por Piketty “nos quais parece não haver fonte ou onde a fonte não é descrita de maneira precisa ou completa”. No mais, o editor britânico reinterpretou os dados apresentados por Piketty e contestou uma das conclusões mais importantes do livro face à concentração de riqueza entre as pessoas mais ricas. Contrariando uma conclusão disposta no livro, Giles, entende que a concentração “tem se mantido bastante estável ao longo de 50 anos, tanto na Europa quanto nos EUA” e então finaliza:

“Não há uma tendência de alta evidente. As conclusões de O Capital no Século XXI não parecem ser corroboradas pelas próprias fontes do livro”.

A crítica me estimulou a priorizar a leitura do livro. Foi lá pelos idos de 2014 e talvez por ter sido utilizada à época por liberais e libertários para contestar ideias apresentadas na obra que se notabilizou mundialmente, Giles foi confundido como partidário do liberalismo clássico em alguns círculos de estudos que participei, quando na verdade é um defensor do que tenho muito apreço: a pluralidade de pensamento no debate econômico, algo que provocou inclusive o meu afastamento de grupos libertários onde percebi prioridade por militância que tenta converter tudo e todos ao viés de pensamento dominante, em vez da promoção de estudos para um debate econômico que seja sério e construtivo aos participantes.

Não apenas em política, muita coisa dita em economia está baseada em crenças e não em ciência. O meu viés austrolibertário é de foro íntimo e, embora seja significativo para mim, tento tratá-lo (não é fácil) sob pouca importância quando estudo e converso sobre economia; não tenho o menor interesse de tentar convencer qualquer pessoa dessa minha crença, sobretudo a que defenda alguma forma de estatismo, intervencionismo, planejamento central, controle social e taxação em contraste com minhas visões consideradas “ultra liberais”. Não me interessa provar que minhas crenças estão corretas e as dela, não. Os fatos falam por si, o problema é ter discernimento e humildade para interpretá-los. Minhas discordâncias de intervencionistas começam pelas crenças que tenho e são meramente cosmológicas, mas alcançam também o âmbito dos resultados. Insisto em mencionar “crenças” porque não tenho qualquer dificuldade em admitir que meu pensamento econômico é algo muito mais composto pelo que creio, embora alguns dados possam ser relevantes para atestar ou não determinadas teorias na avaliação de fenômenos (eis a parte da economia que é ciência). Isso posto, preciso romper com qualquer liga religiosa, ou seja, não faz sentido para mim conversar sobre economia tratando minhas crenças como coisas intocáveis, dogmáticas; duvido de alguma crença de vez em quando, admitindo a possibilidade de revisá-la ou até mesmo abandoná-la (e algumas vezes isso acontece), entendo como algo saudável para não fazer da economia uma coisa meramente ideológica.

O que mais lamento em debate econômico é a não consideração prioritária dos fatos, das consequências das teorias aplicadas, quando pensadores se mostram mais preocupados em dar uma roupagem científica aos credos que defendem incondicionalmente. O problema crônico é que essa “roupagem” muitas vezes não passa de fantasia para satisfazer alinhamentos ideológicos, e então no lugar de ciência, temos um encontro de crentes em política econômica que são tão fundamentalistas quanto os que andam por aí com uma Bíblia debaixo do braço tentando converter o mundo.

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