Imagem: IEA

Ricardo Abramovay

“O resultado, como mostra o livro fundamental de Ray Kurzweil (2005) é que os computadores estão fazendo com nosso poder mental o que a máquina a vapor e a eletricidade fizeram com nossos músculos.”

Obra: De baixo para cima. A economia híbrida do século XXI. Aeroplano, 2014, Rio de Janeiro. Organizadoras: Eliane Costa e Grabiela Agustini. Artigo de Ricardo Abramovay.

Mais um estudioso que chegou à mesa sobre minha caminhada para tentar descobrir algo mais acerca do que está acontecendo com a economia na atualidade. Chamou-me a atenção a riqueza de referências bibliográficas neste artigo componente da obra.

O professor Abramovay menciona um paralelo entre a Revolução Industrial no século XVIII e o que ocorrera com a disseminação do computador a partir da década de 1990, em referência ao que aborda o economista Brian Arthur (2011): “com a chegada da Revolução Industrial – grosso modo, a partir de 1760 quando apareceu a máquina a vapor criada por Watts e até um período pouco posterior a 1850 – a economia desenvolveu um sistema muscular expresso na força das máquinas. Agora, ela está desenvolvendo um sistema neural” (p. 107). A dita ” inteligência artificial” é um estágio desse processo que alcançou uma capacidade mais sofisticada, afetando com maior profundidade a mente.

Apresenta-se então o conceito de “economia híbrida”, e entende que ainda é “minoritária” (p. 11), sendo uma espécie de abandono do conceito de separação clássica entre o público e o privado. A híbrida se desenvolve “por meio da unidade entre internet e economia colaborativa” (p. 108), cuja base consiste na “mistura entre colaboração social e economia privada” (p. 109) em um “sistema descentralizado” (p. 113) que “abalou de forma disruptiva todo o setor de comunicação, informação e a produção de cultura” (pp. 116-117), modificando profundamente as condições para o empreendedorismo de maneira que Chris Anderson, cita o autor, não hesita em chamar este fenômeno de “nova revolução industrial” pela “possibilidade individual de conceber e fabricar com eficiência bens que, até recentemente, só podiam sair de grandes unidades fabris” (p. 119). Sobre a descentralização mencionada como característica do que é sintetizado como “economia híbrida”, eis um ponto de tensão ideológica quando penso que a mentalidade de planejamento central-estatal é um pilar do intervencionismo e de muitas práticas coletivistas que inibem a ação espontânea do indivíduo., o que faz da híbrida uma coisa virtuosa para libertários e liberais, enquanto a descentralização que a acompanha se torna um tormento para socialistas e progressistas que raciocinam amparados pela ideia de controles via tutela estatal.

A citar o que pensa Bauwens (2012), explica o professor que essa mentalidade híbrida compõe uma “economia ética” onde “a lógica do negócio tem que se acomodar a uma lógica social” (p. 110) a explorar as mídias digitais (p. 112); o professor ilustra a Wikipedia (p. 111), notável exemplo, penso, além da companhia norte-americana Opower, que faz uso de redes sociais para alterar o comportamento dos consumidores. Menciona também a Imazon pelas técnicas avançadas no monitoramento da Amazônia quanto ao desmatamento (p. 110), e o Youtube que se tornou meio de lançamento de novos artistas, a se compatibilizar com softwares como Pro Tools, “que custam US$100.00 (texto é de 2014) transformam um computador pessoal num estúdio de gravação” (p. 117). Incluiria nesta lista o blockchain do Bitcoin como marco nessa cooperação em rede descentralizada que ousa dispor uma moeda privada, não gerenciada por bancos centrais sob controle estatal.

Levemente a lembrar uma crítica para um dos pontos econômicos considerados pelo professor Yanis Varoufakis em Tecnofeudalismo [612], o professor Abramovay cita uma definição de Astra Taylor (2014:10) acerca da internet estar distante de reduzir desigualdades, quando aponta que a Web está fazendo com que “a riqueza e o poder mudam para aqueles que controlam as plataformas que todos nós criamos, consumimos e conectamos” (p. 115), o que me faz pensar que essa economia colaborativa, enquanto baseada em ética social (isso não é necessariamente algo elogioso), e que rompe com a velha ordem industrial (tal rompimento não é necessariamente um avanço civilizatório), pode ser uma mutação do modo de enriquecimento concentrado que se voltou à extração do que esse espírito de compartilhamento pode produzir.

612. 03/07/2026 21h56

.

Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *