Imagem: flickr oficial

“[…] nasceu da convivência dentre criminosos comuns e ativistas políticos dentro do presídio da Ilha Grade […]”
Obra: A Nova Era e a Revolução Cultural. Apêndices. As esquerdas e o crime organizado. Vide Editorial, 2014, Campinas. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo/Campinas, 1947-2022).
A convivência de “criminosos comuns” dentro do presídio da Ilha Grande, com ativistas políticos (p. 98), que Olavo de Carvalho se refere, teria sido o berço – entre 1969 e 1978 – do desenvolvimento de uma facção criminosa brasileira que hoje tem ocupado bastante os debates sobre “segurança pública” e recentemente entrou para a lista de grupos terroristas do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O filósofo brasileiro faz essa conexão como certeza que “parece deixar definitivamente assentada” quanto à conclusão de como se deu esse nascedouro, e assim o faz apontando com base no livro Comando Vermelho, A História Secreta do Crime Organizado, de Carlos Amorim, onde destaca um trecho da obra, sem pretender apresentar um resumo do trabalho e recomendando a leitura, cuja edição informada é de 1993 (nota 26). A citação me foi muito impactante (p. 97).
O grau e a participação de organizações de esquerda, na criação desta escola do crime, não estão claros para Olavo de Carvalho que parece ter escrito este apêndice com um certo espírito profético ao considerar que essa organização tem o poder de colocar em risco a “jovem e frágil democracia brasileira” (p. 99), pois o texto de Olavo de Carvalho foi publicado em 1994, cinco anos após a primeira eleição presidencial depois da ditadura militar. O filósofo faz essa ponderação em meio ao que entende como uma contradição entre a narrativa e a opinião de Carlos Amorim.
Princípios da organização, técnicas de propaganda ou agitprop, as táticas de ação armada e o selecionamento de armas para cada tipo de operação, são pontos discorridos por Olavo de Carvalho (pp. 100-103), junto com uma bibliografia usada por grupos da extrema esquerda, algo que sugere uma impressionante semelhança de procedimentos de grupos políticos revolucionários com ações da famigerada organização criminosa.
Olavo de Carvalho afirma que Carlos Amorim interpreta que “os ensinamentos de guerrilha teriam sido passados aos bandidos de uma maneira natural, espontânea, impremeditada, ao sabor de contatos fortuitos entre indivíduos, e sem qualquer responsabilidade das organizações esquerdistas”, além de que na obra não se dá importância à “tese policial que vê no Comando Vermelho uma extensão ou um recrudescimento da velha guerrilha revolucionária”. Outro ponto de destaque está na menção do que aconteceu com os prisioneiros políticos na abertura democrática: tornaram-se deputados, ministros, procuradores “com poderes suficientes para dissuadir qualquer olhar curioso que se lance sobre um passado que eles preferem manter protegidos entre névoas”, e que a ambiguidade de Carlos Amorim pode ser explicada por isso (p. 99).
Eis um dos pontos mais polêmicos desta obra, penso, da série de grande sucesso nacional Por que esquerdistas odeiam tanto Olavo de Carvalho?, como diria o espirituoso eremita pastor Abdoral.
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