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Sócrates

“Eis o que me dizia Diotima, ó Fedro e demais presentes, e do que estou convencido; e porque estou convencido, tento convencer também os outros de que para essa aquisição, um colaborador da natureza humana melhor que o Amor não se encontraria facilmente. […]”

Obra: O Banquete. 212.b. Abril, 1972, São Paulo. Tradução de José Cavalcante de Souza. De Platão (Atenas, 428/427 – 348/347).

De quem nada deixou escrito por registros de seu discípulo, Platão.

Revisitei anotações de 24/02/1994 Eros em O Banquete, de Platão. Guardei esse apontamento porque foi a minha primeira aula de filosofia com o professor que se tornaria meu mentor. Também porque uma polêmica marcou aquela primeira experiência com um colega que não reagiu bem a um comentário do professor.

Em uma visão geral, ZW destacou a mudança de estilo narrativo no bloco que registra as falas de Sócrates em comparação com os outros componentes da festa. Naquele evento típico de comes e bebes entre amantes do saber na Grécia antiga, organizado na casa do poeta Agatão, os participantes fizeram discursos, mas o mestre de Platão aplicou uma dialética, algo bem característico dos registros que lhe são atribuídos, mediante um tom de aprendiz pelo que afirmou ter recebido de lições da sacerdotisa Diotima de Mantineia (p. 39) , envolta a dúvidas quanto à sua existência podendo ter sido uma personagem inventada nas falas de Sócrates.

O momento polêmico ocorreu por uma abordagem do discurso de Aristófanes a retratar a homossexualidade na Grécia antiga, quando o professor comentou que o erotismo entre pessoas do mesmo sexo era visto com certa normalidade em comparação com o que ocorre na nossa civilização. O estigma profundo da homo e da bissexualidade teria ocorrido, na visão do docente, a partir da forte influência do cristianismo quatro séculos adiante pelo caráter universalista, diferente da religião judaica de onde saíra como seita, sendo uma nova fé que se revelou missionária, expansionista, com o propósito de colonizar massivamente a mentalidade de seguidores, atuando sob aspirações globais, e assim disseminou doutrinariamente um estigma de ‘pecado’ em relação às práticas, algo que está determinado no Levítico, condenando uma forma de amor no âmbito de uma religião sem as pretensões globalistas da que dela se originou, a cristã, e que até hoje recai com violência em formas de preconceitos até alcançar ações que atentam contra a vida de homo e bissexuais. Nesse sentido, finalizou ZW, “houve um retrocesso provocado pelo cristianismo”. Então um colega religioso, protestante tradicional, pediu a palavra e lamentou que “uma coisa antinatural fosse usada para ilustrar uma civilização considerada mais evoluída que a nossa”, o que despertou uma discursão acalorada com um grupo que se sentiu ofendido. O professor ficou em silêncio observando a discussão e, após uma calmaria, retomou a lição para a parte mais empolgante: o conceito intermediário designado ao Amor, quando Sócrates explica mais detalhes do que aprendera com a sacerdotisa (p. 40):

– О оpinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber – pois o que é sem razão, como seria ciência? – nem é ignorância – pois o que atinge o ser, como seria ignorância? – e que é sem dúvida alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre entendimento e ignorância.

O Amor é “algo entre mortal e imortal” na dialética socrática em referência ao que aprendera com Diotima. Esse Eros não divino tem o poder de ” interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses” (p. 40), de maneira que a narrativa se torna envolvente e culmina no que Sócrates afirma na conclusão (p. 49); eis a descoberta do dia para aquele meu eu de 19 anos, junto com o que o professor indicou como sendo a “Progressão do Amor”, condicionada ao amante que larga o “amor violento de um só” na relação (p. 47) e segue para as próximas etapas em que produz da contemplação física ao belo da alma, cujo termo “Amor Platônico” se desenvolveu em um sentido muito mais amplo e profundo que o usualmente adotado, atingindo o ápice da aula.

Um ano depois, quando fiquei impressionado com o conceito estoico de Amor fati, passei a vê-lo com sentido na ligação com a progressão do Eros na apreciação de Sócrates e o quanto essa intermediação evolutiva esboça o Amor altruísta na perspepctiva cristã.

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