Imagem: Manole

“O impacto potencialmente danoso do uso de antidepressivo estimulou a investigação de preditores associados à mania emergente do tratamento em pacientes com transtorno bipolar (Frey et al., 2009)”

Obra: Estados mistos de humor. Do diagnóstico ao tratamento. 2. Evolução histórica da da caracterização dos estados mistos. Manole, 2024, Barueri. De Doris Hupfeld Moreno, Diego Freitas Tavares e Ricardo Alberto Moreno.

O conceito de estados mistos é um dos mais desafiadores da psiquiatria, “envolto em dúvidas, com parca literatura científica” (p. 2) e a definição com base na “superposição de sintomas depressivos e (hipo) maníacos em um mesmo episódio afetivo” (p. 1) paira em ceticismo e confusão (p. 1).

Ao ver este livro no armário de minha esposa, voltei a 2008 quando colaborava com o meu psi na organização de bancos de dados para consolidar resultados de estudos e pude perceber como o problema fora desafiador a envolver a análise de impacto do uso de antidepressivo. Lembro que alguns resultados à época estavam próximos ao do estudo relacionado ao trecho (p. 47) desta Leitura quanto aos sintomas maníacos (p. 47). Quando penso na indústria farmacêutica que vive da exploração do uso indiscriminado desse tipo de medicamento, e o quanto pode causar dependência e, muitas vezes, sem surtir o efeito positivo esperado, entendo a importância desse tipo de estudo.

Outro ponto que me chamou atenção nos estudos deste livro está a relação do transtorno bipolar com sintomas maníacos subsindrômicos; distraibilidades, fuga de ideias, pensamentos acelerados e agitação psicomotora. Na mentalidade imediatista, recorrer à medicação sem rígido acompanhamento dos resultados pode ser um fator para multiplicar problemas. Lembro-me de um caso de estados mistos que me chamou atenção em 2007, relacionado a um jovem que tinha conhecido na universidade em 2001. Na Rua do Padre Inglês, bem ao lado do seminário teológico onde estudei, havia um sanatório e passando pela calçada o reconheci paralisado em uma das janelas do edifício do psiquiátrico. Ao visitá-lo, ele não me reconheceu (certamente não quis me reconhecer). Em outra visita pude conversar com a mãe dele. Ele tinha passado por várias crises de depressão.

Quando estudávamos em 2002, dava sinais de anedonia; começou a abandonar diversas atividades que costumava realizar, além de apresentar transtornos bipolar e obsessivo, este último relativo a higienização de objetos, além de paranoia; era extremamente desconfiado com tudo e todos. Naquele mesmo ano abandonou os estudos, afastou-se do emprego em uma estatal e após passar por diversos tratamentos com farmacológicos, incluindo terapias, permaneceu com um quadro de múltiplos transtornos e manias que se acumulavam. Um detalhe mencionado pela mãe me chamou atenção: a quantidade de medicamentos receitados entre tipos diversos de antidepressivos, estabilizadores de humor e antipsicóticos aumentou ao lado da piora no quadro nos últimos três anos, era 2007. Os únicos fármacos que faziam efeito, segundo a sua mãe, eram os benzodiazepínicos quando tinha surtos de ira e se tornava agressivo com ela.

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