Imagem: Planeta de Livros

Brigitte Giraud

“Houve a sensação de que você se fundia a mim. Que eu me tornava ao mesmo tempo homem e mulher.”

Obra: Viver depressa. Planeta do Brasil, 2024, São Paulo. Tradução de Maria de Fátima Carmo. De Brigitte Giraud (Argélia, 1960).

Passaram-se 20 anos da perda do marido e a escritora francesa, ao desbravar meticulosamente seus questionamentos sobre o destino, deixou-me a impressão, quando meditei sobre este trecho (p. 155), de que a relação que teve foi tão intensa, tão poderosa, que, de alguma forma, viu-se (ou se vê como?) no próprio companheiro falecido, embora ao longo de todo esse tempo às vezes o perdia, deixando-o sair de si (p. 156), essa fusão ficou transparecida em pequenas e profundas manifestações em uma forma de olhar ou em uma entonação de voz (p. 157) a ecoar pelo tempo.

Em cada detalhe de um “se” vi uma ousadia rara de olhar absurdamente para o destino como se fosse algo sondável, cujo caminho determinado por fatores acima de qualquer possibilidade de controle, firmam-se em uma barreira intransponível pelo tempo que acumula perguntas sem respostas. Os “se”, que poderiam ter mudado o destino e evitado a tragédia, então permanecem impetuosamente em cada momento que as dores pareciam diminutas, mas Brigitte Giraud, penso, não fugiu delas como quem toma anestésicos que recusam o que um desconforto pode significar no desenvolvimento pessoal e assim quis deixar claro que não se rendeu a um fingimento de que não se tem aquela implacável inquietude que atravessará por toda a vida que lhe resta, e assim confessa o que lhe fora inconfessável sobre o desejo de ter a conveniência de ocorrer um fim de mundo (p. 151), mesmo que tão vazio de sentido em um Paco Rabanne crente nas profecias cataclísmicas de Nostradamus (p. 153).

O destino que a escritora se voltou para sondar está na mesma categoria de certas coisas que na vida simplesmente acontecem, com impessoalidade, plenas de soberania mediante nossas vulnerabilidades, muitas desconhecidas, e que muitas vezes ignoramos, além de indiferença a desejos, anseios e crenças que exercem juízo de valor sobre os porquês de fatos que nos impactaram demais, pelo menos na perspectiva do mérito sobre si, algo por sinal vago, entre encontros e desencontros que gostaria de não ter vivenciado.

Nada tem a ensinar a vida em si mesma, pensei mais uma vez no que me marcou em relação à invasão de Adler em minha psicanálise. Torno ao quanto se está disposto a se reconduzir do que fora devastado, e o que resta na forma fria e direta de aceitar fatos e exigir de si uma coragem de ser, na vontade de se livrar do superficial que impede a realização de entender um pouco melhor o que dividiu uma história pessoal, mesmo diante da fragilidade que caracteriza tudo e todos sob o destino.

Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *