Imagem: Planeta de Livros

“Como Kelley pôde ver, ao abraçar o nazismo Göring procurava satisfazer seus desejos pessoais e sua ânsia pelo poder.”
Obra: O nazista e o psiquiatra. 5. Borrões de tinta. Planeta de Livros, 2025, São Paulo. Tradução de Solange Pinheiro. De Jack El-Hai.
Do livro ao filme mais recente, fui ao streaming e, mais uma vez, em minha perspectiva de leitor, a literatura suplantou a sétima arte, não que a adaptação não seja de boa qualidade mas, como dissera minha professora de econometria e bibliófila na antiga Livro 7 em meados dos anos 1990:
– Uma boa literatura abre o universo de potencialidades ao intelecto imaginativo e reflexivo do leitor de uma forma que um filme, por mais excelente que seja, não consegue alcançar.
Talvez um cinéfilo pense o contrario, como o que encontrei no seminário que, em meio à minha discordância, garantiu-me ser melhor a adaptação (1986) de Il nome della rosa, feita por Jean-Jacques Annaud, em comparação com o romance escrito por Umberto Eco.
Torno ao livro que deu origem ao filme. O pano de fundo: Nuremberg, sede de um julgamento internacional que escancarou as chagas de uma maldade que deixou um estigma que atravessa o tempo.
As figuras principais desta história: Douglas Kelley e Hermann Göring. Do lado vencedor, um psiquiatra militar, sem experiência com criminosos de guerra (p. 36) e que fora incumbido de uma missão que deixou sob o desejo de entrar para a história na produção de um registro detalhado e precioso sobre um dos perfis mais perversos que a espécie humana produziu. Do outro, o objeto, o prisioneiro e “paciente”, nazista no sentido pleno do termo, sucessor de Hitler, o Marechal do Reich que portava um narcisismo no “mais puro egocentrismo” que o doutor” jamais havia se deparado” (p. 93).
Na ala dos vinte e dois líderes nazistas prisioneiros, Kelley se viu diante de uma riquíssima fonte de dados para aprender sobre traços psicológicos de quem cometera crimes de guerra tão graves, dentro de uma estrutura hierárquica que os deixava sob o apelo de ter “cumprido ordens”. Com os resultados do borrão de tinta do Teste de Rorschach aplicado em Göring, o psiquiatra concluiu que o líder nazista revelou uma “considerável capacidade intelectual, muito imaginativa, dada uma vida de fantasia expansiva e agressiva”, de ambição desenfreada (p. 116).
O perfil do prisioneiro favorito do psiquiatra suscitou em mim a questão do fascínio que esse tipo de psicopata exerce na massa que alimenta o mundo da política. Foram líderes que conseguiram canalizar desejos, anseios e ideais cuja obscuridade se esconde na paixão ideológica que explora as distorções cognitivas de quem os apoia. Na ala do alto escalação nazista, Kelley aprendeu sobre o poder imenso da combinação de “qualidades”, “ambição desenfreada”, “pouca ética” e “patriotismo excessivo” (p. 186) em sujeitos que “não eram monstros, máquinas de fazer o mal ou autômatos sem alma e sem sentimento” (p. 186); eram agentes dentro de uma estrutura que os produziu para se portarem de forma eficiente, adaptada à “atmosfera nacional” (p. 187) que ansiava por um “herói”, o Führer. Neste sentido, Hitler e seus pares não fizeram a Alemanha dos anos 1920 aos 1940, mas fora o contrário.
Obra para vários registros.
O trabalho de Kelley apontou que a maldade, nos níveis mais intensos, acontece na política por meio de indivíduos que não encarnam a figura personificada do maligno, mas por aqueles que são exemplares, pais de família, modelos que cumprem ordens que refletem as coisas consideradas mais importantes e que predominam em uma sociedade em ebulição com ideias de ódio vistas como virtudes e fontes de uma justiça super estimada.
É um grande alerta para o nosso tempo.
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