Imagem: wikipedia.org

“[…] Sabe que já estou obrigado a celebrar o aniversário de minhas sensações, o aniversário daquilo que antes era tão belo, daquilo que na realidade nunca aconteceu […]”
Obra: Noites Brancas. Segunda noite. Editora 34, 2009, São Paulo. Tradução de Nivaldo dos Santos. De Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Império Russo/Moscou, 1821-1881).
Um melancólico senhor que se define como alguém sem história (p. 28) mas que se revela um sonhador por excelência a confessar suas fantasias a Nástienka, de 17 anos (p. 45) que se permite a ser chamada pelo diminutivo russo (de Nastassía, p. 29) enquanto meio pragmática, meio impulsiva, revela-se disposta a aproveitar com seu inusitado interlocutor a segunda noite ao sol.
O sonhador e a joveníssima seguem dispostos a se conhecerem melhor (p. 27) em uma narrativa de opostos de gerações que têm em comum uma vontade um tanto mística de sondar o outro, enquanto ensaiam dividirem aspectos mais profundos até então apenas para si.
Nástienka se encanta com o refino literário do sonhador (p. 32) em contar sobre sua própria forma de ser:
“Escute, o senhor fala maravilhosamente, mas será que não pode falar de uma maneira menos maravilhosa? O senhor fala exatamente como se lesse um livro”.
Quando o sonhador escuta a história de Nástienka e se dispõe a ajudá-la (p. 53) com a ânsia de um amor que ela vivera, penso, inicia um caminho para alimentar uma relação por um fio condutor que faz os dois se aproximarem ainda mais, alheios ao mundo que não se permite ao poético, cantando após referenciarem a fala de Fígaro no primeiro ato de O Barbeiro de Servilha (p. 55, nota do tradutor).
O ar poético do sonhador se exalta quando diz: “eu a conheço a muito tempo, Nástienka, porque há muito tempo procurava alguém, e isso é um sinal de que procurava justamente a senhorita e que estávamos fadados a nos encontrar neste momento” (p. 33), e segue a revelar uma sensibilidade de ler e se impressionar com coisas simples do cotidiano (pp. 33-35), para cair em um vazio na tristeza de sua solidão e se desgarrar pela forma de sua imaginação diante da literatura (p. 36) como um “ocioso sensual” (p. 38).
O sonhador, parei para pensar, é um sujeito que vive intensamente em dois mundos, à semelhança de Nástienka (e quem não vive?): o real, peregrinando em dilemas e dores de coisas não realizadas, e o da imaginação, onde se permite a emoções intensas pela força da criatividade. Tal sentimentalismo não se restringe ao prazer que se inventa para alívio de uma existência de frustrações; o sonhador caminha no segundo mundo paralelo a pensar no quanto é enganosa “uma paixão autêntica e verdadeira” que turva a alma, na crença de que “há algo vivo, palpável” em “ilusões imateriais” (p. 39). Nástienka o admira por, de certa forma, se vê na beleza da narrativa.
E assim o sonhador vai se abrindo àquela que se comove com um desfecho que ele parecia não imaginar; a preservação do interesse dela em lhe ouvir mais, a sinalizar mais uma noite. O sonhador se dá conta de que falara demais, sobre coisas que estavam acumuladas por muito tempo em sua perspectiva de uma vida desperdiçada (p. 41), mas fica recompensado de forma extraordinária pela experiência de ter uma companheira aprazível para caminhar ao seu lado na intimidade de seus segredos.
Comentário