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Jennette McCurdy

“Minha mãe não merecia seu pedestal. Ela era uma narcisista.[…]”

Obra: Estou feliz que minha mãe morreu. 91. nVersos, 2022, São Paulo. Traduzido por Soraya Borges de Freitas. De Jennette Michelle Faye McCurdy (EUA/Califórnia/Los Angeles, 1992).

I’m glad my mom died é um título que pode soar ofensivo [622], quem sabe pensado por um apelo de marketing, mas quem tem consciência sobre o que é o transtorno de personalidade narcisista (TPN) e conviveu ou convive com uma pessoa com esse tipo de condição psiquiátrica, certamente vai entender as razões da atriz Jennette McCurdy, em relação ao que conta sobre a própria mãe nesta autobiografia. Quando ela confessa sua fúria com as palavras elogiosas na lápide, atribuídas à sua mãe (p. 297), retrata um sentimento comum em muitas vítimas de narcisista.

“Recusava-se a admitir que tivesse algum problema, apesar do quanto esses problemas foram destrutivos para toda a nossa família” (p. 298), afirma, sobre um comportamento típico de quem tem TPN. E aqui penso, ao identificar um TPN ou desconfiar de alguém com o transtorno, é recomendável não apontar o que pensa à pessoa, especialmente se for do círculo intimo. No mesmo parágrafo McCurdy resume um drama que é familiar a muitos que lidam com consequências no relacionamento com um narcisista: “Minha mãe abusou de mim emocional, mental e fisicamente de formas que terão impacto eterno sobre mim”. Neste ponto, penso que até alguém aprender bem o que significa esse transtorno, para saber lidar melhor com quem precisa se relacionar, infelizmente já terá sofrido abusos não raramente severos.

A menina que se notabilizou pela série iCarly, sem ter desfrutado de uma infância, desfigurada por uma vida de adulto, voltada a uma carreira profissional que lhe foi imposta, também acabou com um transtorno alimentar pela neurose típica de quem enxergava a filha como um negócio onde o controle excessivo de peso, para conservar um corpo considerado compatível com os negócios, importava mais do que qualquer outra coisa que pudesse alegrar seus primeiros anos de vida. Ela também expõe qualidades de sua mãe e o quanto sente falta dela, mas logo se dá conta de sua romantização quando se volta à realidade de ter vivido com quem não tinha interesse em mudar e vivia para lhe manipular (p. 299).

Saber identificar um narcisista no início de um relacionamento, seja afetivo ou profissional é muito importante, mas o caso de McCurdy não possibilita essa proatividade; trata-se de uma exposição no âmbito familiar, e tendo sido criada por uma narcisista, ela viveu sob uma condição onde apenas pôde entender sua realidade muitos anos depois, com ajuda psicoterápica. Ela passou pela infância, fase delicadíssima que ecoa na vida adulta, onde foi totalmente submetida ao problema sem a óbvia falta de mínima noção do que se tratava.

622. 28/01/2024 12h28

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