Imagem: Casa do Saber

Byung-Chul Han

“Sem sentimentos, emoções ou afetos, sem excitações, não há conhecimento. Eles inervam o pensamento. Esse é exatamente o motivo pelo qual a Inteligência Artificial não pode pensar.”

Obra: O espírito da esperança: contra a sociedade do medo. Esperança e conhecimento. Vozes, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Milton Camargo Mota. De Byung-Chul Han (Coréia do Sul/Seul, 1959).

Há algum tempo venho meditando nos livros do professor Byung-Chul Han e, novamente, percebo que o processo de me desarmar sobre o que é dito, predominantemente, acerca do viés do autor, tem me ajudado a aprender com a experiência de leitura.

Antes, em relação ao trecho (p. 66), Byung-Chul Han, por outra via de argumentação, fez-me pensar no que dissera em julho passado o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis sobre a Inteligência Artificial (IA): “não é nem inteligência, nem artificial” [511]. Pensei nos que vivem de explorar o tema pela alienante narrativa comum na indústria de TI que chama de “inteligência” uma imensa base de dados aplicados sob cruzamentos em heurística, o que não leva o público leigo a confundi-la com inteligência em termos humanos, algo muito mais sofisticado e isso pode ser verificado pelos comprometedores resultados de testes comparativos realizados por pesquisadores da Apple, sobre os limites de “raciocínio” dos “Large Reasoning Models” (LRMs), avanço dos “Large Language Models” (LLMs”). Cabe-me ainda lembrar o que sugere o neurocientista sobre a engenharia reversa da inteligência humana ser inviável [512].

Se Nicolelis me faz pensar na ilegitimidade do termo “inteligência artificial”, o filósofo coreano radicado na Alemanha provocou uma reflexão por outra via ao lembrar que a IA não pensa porque não tem emoções, nem capacidade de desenvolver afeto. A IA não pode amar, “não tem amigo, não tem amante”, afirma (p. 68); sem sentimentos, “pois são eventos analógicos, físicos”. Byung-Chul Han recorre ao significado do termo “inteligência”: inter-legere, “escolher entre”, relacionado à capacidade de realizar cálculos. Menciona Deleuze sobre pensar ser um ato do “faire l’idiot“, forma radical de romper “com o já existente” onde, penso, a visão da compreensão do ser pelos sentidos se desenvolve, além de citar o Tantum cognoscitur, quantum diligitur de Pascal, e Goethe, este último por menção de Max Scheler em Amor e conhecimento, para apontar que é o sentimento que “determina os passos do conhecimento” (p. 66), e assim quem o busca é um amante. Volta-se a Platão para falar sobre o amor como “constitutivo do conhecimento”, cuja tradição é seguida por Heidegger ao tratar o pensamento como “um movimento impulsionado pelo Eros“, elevado “à condição da execução do pensamento”, segundo Deleuze e Guattari (p. 67). O conhecimento, segue o professor, não é prospectiva e sim retrospectiva na “visão de essência guiada pelo amor”, sendo “reminiscência das ideias passadas” a tomar novamente como base Platão, voltando-se então ao “sido”, também abordado por Heidegger quando define o pensamento como algo que vai “de volta ao que foi” (p. 68).

Apresentando o amor além da inter-legere, voltando-se ao que foi, a esperança abre o campo de possibilidades não por conceitos, mas por antecipações ou pressentimentos (p. 70) e assim o tema da IA incapaz de pensar se conecta à concepção de como se dá o conhecimento também enquanto meio de expectativa em torno do vindouro, à temporalidade do futuro. Neste aspecto, o filósofo recorre a Alberto de Cantuária (p. 69):

“Eu creio para que possa conhecer.”

Sem esperança, ficamos presos ao passado ou às condições negativas do presente, argumenta (p. 70). O professor também faz menção a Adorno, que “compreende a esperança como meio da verdade” (p. 72), o que é algo bem relativo, à mon avis, sobretudo quando insere a arte na questão (p. 73). Byung-Chul Han também recorre a Lutero sobre a ideia do pensamento “que se alimenta da esperança” (p. 69), além da visão do sonho como meio de conhecimento, após citar um argumento do crítico literário alemão Walter Benjamim (p. 71) onde, de forma ampla, penso, assim reflete o filósofo coreano, “o significado do passado não se esgota nas coisas que eram em sua época e lugar”, além de referências a Montmann, (1) que reler o tema do porvir sob a esperança como condicionante ao conhecimento enquanto indica (2) que o pensamento, no sentido esperançoso, “não olha para a realidade com ‘os olhos noturnos da coruja de Minerva'” (p. 70).

Por fim, penso, ser tão interessante a crítica do coreano, a denotar uma abordagem filosófica, bem diversa, quanto a feita pelo neurocientista Nicolelis. Contudo, a de Byung-Chul Han me pareceu um grave alerta quando pensei em casos de pessoas que recorrem a formas de IA para interação além das aplicações técnicas convencionais, não que isso não seja fonte de problemas, sobretudo em relação à autenticidade intelectual e ao estímulo à preservação da ignorância daquilo que se apresenta como especialidade. Aqui penso em um caso recente que observei em um contador de um cliente de minha carteira que deu sinais visíveis que não entendia praticamente nada do que supostamente escreveu em um relatório de balanço, não conseguia pensar além da repetição fria, e algumas vezes sem sentido, diante de um texto onde o vocabulário falado pelo suposto autor se mostrou bem mais precário que o do texto da apresentação, a denotar também muita insegurança na explicação dos termos, levando o proprietário da empresa a me perguntar, posteriormente, quem (ou o quê) de fato seria o contador de sua empresa: o jovem com CRC perdido nas argumentações ou alguma IA usada por ele para produzir o documento.

O problema maior, penso, está no uso de IA para conversas de aconselhamento e até mesmo virtualização de amizade em face de que de um lado há um ser humano, com potencialidades de sentimentos, emoções, afetos, que produzem conhecimento e dão senso de moralidade e referência ética, do outro está uma coisa sem humanidade, fria, que não pode sentir as coisas que ocorrem no mundo real, e não tem consciência. Então penso:

O que uma pessoa encontrará de inspirador, para sua saúde mental, ao depositar suas expectativas em uma coisa sem humanidade?*

Temo que seja possível a presente geração, tão deslumbrada com IA na preferência de conversar com coisas ditas “inteligentes”, em vez de humanos, dotados de consciência e capacidade de pensamento, representar um marco inicial para o surgimento de transtornos comportamentais mais severos ou até mesmo de novas doenças mentais baseadas em um processo de desumanização gradual, potencialmente capaz de manter usuários em uma quase total dependência da perniciosa indústria de TI que domina esse segmento e está multiplicando especialistas que não sabem quase nada daquilo que apresentam.

511. Ver em CNN 06/07/2025: Nem artificial nem inteligente, mas com potencial altamente imbecilizante

512. 19/05/2025 23h00

2 Replies to “02/01/2026 07h00 O espírito da esperança: contra a sociedade do medo. Esperança e conhecimento”

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