Imagem: Luciana Amorim

Stephen Hanselman
“[…] A questão não é se algo será recompensado, nem se será bem sucedido, mas se é a escolha correta. [..] O que você conseguirá fazer de hoje antes que ele escape de seus dedos e se torne passado?”
Obra: Diário Estoico. 366 lições sobre sabedoria, perseverança e a arte de viver. 8 e 9 de maio. Bem e mal? Olhe para suas escolhas – Carpe Diem. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Carpe Diem?
Pensei muito sobre o Carpe Diem quando assisti pela primeira vez ao filme Sociedade dos Poetas Mortos (1990) [570]. Foi no final da adolescência, fase em que eu tinha medo sobre o que me esperava no futuro.
Desde que me entendi por ser uma criatura pensante, passei a pensar mais sobre certas dificuldades e questões práticas da vida. Não me escapava a noção de problemas que eram comuns naquele Brasil de 1990 quando gostava de ver programas de debate sobre as intermináveis crises em um país sob o governo Collor que confiscou a poupança do povo, deixando muita gente desesperada, para tentar vencer a hiperinflação (e fracassou), o que me levou ao maior interesse por economia e política. Naturalmente fui meditando sobre o quanto a vida parecia difícil no país em que cresci, e isso me deixava ainda mais preocupado quando passei a perceber a luta de meus pais para dar a mim e ao meu irmão um padrão de vida bem melhor do que tiveram quando tinham a minha idade. Eu sentia um pouco os estresses de meus pais.
Pensava tanto que passei a ter medo do futuro.
Enquanto temeroso com o que viria a ser, terminava o ginásio em um colégio de freiras no Recife, e a minha inusitada preocupação chegou a um confessionário. Quando a madre anunciou que o padre, que costumava atender à escola nas quartas-feiras, estaria no confessionário à disposição dos alunos, fui um dos primeiros a levar o que tanto me atormentava.
– Padre, eu preciso dizer ao senhor que tenho muito medo do futuro. Isso é normal, é bom?
– Que tipo de medo, filho?
Quando lhe contei o que me deixava tão pensativo, também perguntei o que significava Carpe Diem. Tinha uma ideia, mas queria ver o que o padre me diria em comparação com o que tinha acabado de aprender no filme. O padre então perguntou onde eu tinha ouvido falar de Carpe Diem, e quando lhe respondi, lembrei-me do que ele me falou:
– Cada dia que nasce é uma dádiva de Deus e saber aproveitá-lo bem é Carpe Diem. Você entendeu? Filho, Carpe Diem acontece quando você se ocupa em dar o seu melhor em cada dia que Deus te conceder nesta vida, procurando ser um bom filho, um bom aluno, um bom irmão, um bom colega de sala… buscando sempre vivenciá-los com Cristo e Maria e não esqueça, sem se preocupar com o futuro. O futuro não merece sua preocupação, nem a minha, nem de qualquer outra pessoa.
Quando o padre saiu da capela, fui atrás dele porque desejava retornar àquela experiência. E após notar o meu fascínio pelo termo, citou versos que soavam bíblicos e falou:
carpe diem quam minimum credula postero
Não disse os significados nem de onde se originaram. Enquanto sorria, sugeriu que eu “aproveitasse o dia” para descobri-los. Corri para a biblioteca e vi que o futuro não parecia mais aquele monstro das vicissitudes da vida terrena, sobretudo quando descobri também quais eram os versos bíblicos: Lucas 12.27-31.
Trinta e sete anos depois, quando penso no Carpe Diem, penso no Evangelho e no significado do “aqui e agora”. Penso na agonia da epidemia de ansiedade de meu tempo e também penso em relação ao destino; é o que cabe ao que passou nas memórias pelo que se pode recordar, bem ou mal, e quando desejo ter boas coisas para lembrar nos dias que me restam, o único caminho para aumentar as chances de um “futuro melhor” ao que em breve se tornará parte de meu passado, é saber viver bem, viver o presente, celebrar o aqui e agora aproveitando cada instante para não abdicar da virtude no exercício de escolhas que devo fazer em cada momento, em cada dia.
E o exercício de escolhas é o que dá fluidez à vida, eis o Carpe Diem por excelência, procurando discernir o bem do mal nos limites da razão com a amplitude do espírito. Sobre isso, encerro em paráfrase a Epicteto em Discursos (2.I6.I): O que não se sabe o que é bom ou mau em determinada situação, está onde a escolha racional não pode alcançar. E onde a razão não alcança, penso aqui com o meu teísmo, a fé sustem.
570. 25/12/2025 12h47
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