Imagem: University of Exeter

“O Hamas, assim, tanto complicou a vida dos israelenses quanto os ajudou a vender a ideia da luta palestina como parte de uma força islâmica global antiocidental, envolvida num conflito de civilizações. […]”
Obra: A Maior Prisão do Mundo. 10. A primeira intifada (1987-1993). Elefante, 2025, São Paulo. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. De Ilan Pappé (Israel/Haifa, 1954).
A reação popular iniciada em 1987 contra a opressão e a desapropriação em favor do Estado de Israel é algo natural, penso. A ilustração de “Davi contra Golias”(p. 275) retratada na comunidade internacional, em relação a palestinos que atiravam pedras em tanques israelenses, é de uma brutal ironia com a história bíblica e denota aquele dito popular de Deus a escrever certo por linhas tortas.
Mas um fenômeno de desobediência civil que descambou para uma retaliação física, alcançou um estágio de radicalidade que foi aproveitada pelo extremismo político, disfarçado de religioso, que não respeita qualquer limite em relação à violência. Eis o criadouro do Hamas que, por conta disso, passou a ser considerado por muitos especialistas como um movimento importante para o Estado de Israel, lembra o professor (p. 279). Mas em que sentido? O movimento que é, penso, radical e terrorista (meu entendimento), também se revelou – e torno a abordagem de Illan Pappé – muito envolvido com obras de “caridade, bem-estar social e educação” (p. 280), enquanto, em meio a sua natureza ,diria, brutal, cruel, implacável (aqui faço minhas definições), serviu de pretexto para atenuar as críticas a Israel feitas no Ocidente (p. 281).
Nesta experiência de leitura estão presentes termos associados ao Hamas que são bem conflitantes; “radical”, “terrorista” (aplicados por mim), “caridade”, “bem-estar social” e “educação” pelo autor, que também aponta a característica de uma ideologia nacional na ruptura com a visão predominante do “processo de paz” no âmbito do Fatah. O Hamas é um movimento originado da Irmandade Muçulmana (p. 279), que passou a adotar uma linguagem “fortemente antijudaica e anti-israelense” a combater pela “libertação da Palestina” mediante “um século de desapropriação, colonização e ocupação” (p. 280), define o professor. O problema mais crítico, entendo, foi o tipo de combate que rotulou palestinos no mesmo ou até superior nível de brutalidade do agressor de origem, o israelense militante do aparato estatal de Israel.
Obviedade ululante que é driblada por gente politicamente mal intencionada quando se pensa no tema: É preciso separar o judeu comum, que até se envergonha do que é feito no Estado de Israel sobre os palestinos, do judeu militante apoiador do sionismo da Grande Israel, assim como cabe separar o palestino comum, que foi violado pelo Estado de Israel, do palestino militante que atua em grupos radicais e terroristas.
Os termos que juntei fazem sentido ao mesmo objeto “Hamas” e o que vai definir o peso de cada elemento, à mon avis, dependerá da carga de viés ideológico de quem os considerar. O termo “radical” é um tanto consensual, mas, no caso, não diz muita coisa, até mesmo é um radical um adolescente que defende comunismo em redes sociais e se perderia na incontinência se vivesse de fato a ideologia. Já o o termo “terrorista” parece “discutível”, não em minha concepção, mas, sobretudo entre os que tentam legitimar as ações indefensáveis do Hamas pelo propósito de uma “Palestina Livre” sem considerar os meios absurdos adotados e assim preferem fingir que os atos de barbárie de 7 de outubro de 2023 contra civis israelenses, inocentes, foram outra coisa diferente de terrorismo. Neste caso, penso, seria mais adequado, a quem pensa assim, procurar algum parecer psicológico antes de pensar em algo genuinamente sério e reflexivo sobre a questão da Palestina. O mesmo é válido para os que não conseguem enxergar as atrocidades cometidas pelo aparato israelense contra os palestinos desde 1948 e, antes mesmo de existir, no bizarro Mandato Britânico (os ingleses na política externa gostam de deixar a bagunça que fazem para os outros tratarem). Muitos desses cegos tão românticos e áulicos em favor de Israel, diria, cúmplices em certo sentido dos crimes cometidos em décadas, podem ser encontrados em confissões cristãs, alegremente citando versos bíblicos enquanto crianças e idosos são assassinados, como se estivessem sob uma providência divina, além de ambientes laicos cujo discernimento não deixa a desejar em termos de ingenuidade, para não dizer outra coisa, enquanto ambos são objetos de desejo entre os que ardilosamente tomam proveito político da questão.
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