Imagem: Fraternidade sem Fronteiras

Monja Coen

“Mal controla seus pensamentos, emoções, sentimentos, palavras, atitudes, músculos, respiração.

E quer que os outros e o mundo estejam sob seu controle.”

Obra: Aprenda a viver o agora. Parte II. Controle. Planeta do Brasil, 2019, São Paulo. De Monja Coen, Cláudia Dias Baptista de Souza (Brasil/São Paulo/São Paulo, 1947).

O estilo de escrita nesta obra é muito interessante. Na brevidade dos parágrafos há conteúdo reflexivo de uma sabedoria que tem muito a ensinar, como antídoto para o tempo de correria desmedida que observo e tenta me envolver.

“Em cada um de nós habita um controlador”, afirma a monja na abertura do tópico (p. 145). Eis o fenômeno do desejo comum de se ter controle… de si, do tempo, dos outros, de relacionamentos, decisões, da sociedade, de um país (maior vetor de patologias sociais), ânsia normalmente acompanhada do medo da perda ou da incapacidade de não conseguir controlar.

O temor de não estar no controle do que se deseja pode ocasionar em ansiedade ruim, tóxica, e assim, na busca pelo controle, vai se descontrolando, como indica a monja. Penso aqui na pressa descabida, na arrogância de se impor, e quando não se realiza, provoca angústia, em suma, a fixação pelo controle é fonte de sofrimento, seja para quem deseja controlar, seja para quem é objeto das tentativas de controle.

Contudo, tal pretensão por parte do controlador, não estaria baseada em uma ilusão? Refiro-me à crença de possuir controle sem considerar que se trata de algo relativo, bastante limitado.

O controle é essencial, mas apenas no sentido relativo. A ideia do absoluto nessa alçada não passa de delírio. Obviamente, a crítica aqui não faz apologia a uma vida sem disciplina, sem controle do que se está ao alcance e cabe de ser controlado. O problema reside quando se comporta como se esse controle fosse algo completo. Para evitar que se caia nessa ilusão, é imprescindível cultivar a humildade de considerar a limitação diante da infinidade de coisas que não podem ser controladas. Aqui penso no quanto a filosofia estoica e a mensagem do Sermão da Montanha de Cristo podem ser significativas.

Pensei em uma conversa que tive com um amante da aviação, quando foram enumeradas algumas coisas que precisam dar certo, concomitantemente, para que uma aeronave decole, e que não estão sob o controle do piloto. Olhei então para outros exemplos dados na conversa e percebi minha ignorância na imensidão do que não pode ser controlado. Meditei em seguida na expressão “Deus está no controle”, e pensei o quanto é usada para expressar um desejo pessoal de providência, não se atendo que o controle é divino, e não está passivo de ser combinado com o que o crente entende da vida, nem necessariamente exercido pelo que almeja o ser humano, tampouco compreendido em sua profundidade.

A sabedoria da monja me fez pensar também em um empresário e gestor que conheci em 2023, deslumbrado com um sofisticado sistema de TI para controlar a contabilidade e as finanças de seu grupo de empresas. Com as ferramentas tecnológicas, ele transparecia extrema confiança pela crença no “tudo sob controle” até descobrir que o “super sistema” foi incapaz de evitar uma intercorrência grave por conta de vícios administrativos que há muito tempo impediam os negócios de alcançarem o desempenho econômico desejado. Ele confundiu o controle (relativo) e bem elaborado dos números dos seus negócios, com o controle (ainda mais relativo) das pessoas que participam deles e de variáveis incontáveis que não podem ser por ele controladas. Quando descobriu essa grande ilusão, entrou em pânico e sofreu uma crise existencial que foi se agravando na medida em que se dava conta que nem mesmo entre as pessoas que tinha como de “maior confiança”, possuía o tal controle das coisas que acreditava ter; descobriu traições e outras questões que enterraram sua crença no controle.

Do empresário frustrado, agora penso em um jovem que conheci em 2016. Admirava seu estilo de vida esportiva, de um notável vigor, mas, infelizmente, ao se deparar com o resultado de um exame que lhe revelou ser portador de uma neoplasia maligna, entrou em um ciclo de revolta o qual não conseguiu se libertar. Não aceitou o imponderável, pois cuidava tão bem do corpo e da mente, o que sinalizava sua sabedoria, mas não fora suficiente para compreender que esse controle não significa que se terá garantia da preservação daquilo que é relativamente controlado: a própria saúde.

O controlador em sua ilusão, vive no que a monja, e torno ao texto, afirma sobre uma irritação quando se depara com o que saiu de sua ideia de ditar a ordem das coisas, de se ter o controle, quando nem mesmo se dá conta do problema do descontrole que está no trecho (p. 146) desta Leitura. Eis o caso comum do marido controlador da vida da esposa, e vice-versa, do pai e/ou a mãe que impõe todos os passos a serem cumpridos por um filho mesmo em idade adulta, de um político intervencionista que se converte em ditador de regras para a sociedade, entre tantos que vivem como se o mundo estivesse sob um parâmetro de controle que só existe na mente de quem se permite a tal ilusão.

2 Replies to “21/01/2026 20h00 Aprenda a viver o agora. Parte II. Controle”

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