Imagem: site oficial

“[…] se você organizar em fila indiana todos os seres humanos que já nasceram e mais todos os que algum dia virão a nascer, e ainda se dar ao trabalho de passar a fila em revista, não vai encontrar ninguém igualzinho a você.”
Obra: Tudo que eu devia saber na vida aprendi no Jardim-de-Infância. Best Seller, 2000, São Paulo. De Robert Lee Fulghum (EUA/Tecas/Waco, 1937).
– Por que você não faz como todo mundo? – após ouvir as explicações que dei sobre meu incomum método de trabalho.
– Não tenho como, perdoe-me, porque não sou todo mundo – respondi.
Sou apenas um na fila do livro de Robert Fulghum, resultado de uma combinação de gametas entre meus pais que, praticamente, garante que eu seja diferente de todos dentre os bilhões de seres humanos que existiram até hoje e que existirão (p. 96). A diversidade está além da ideologia.
Por conta Lei de Locard veio o inusitado quando em uma sociedade de pensadores uma dia olharam para mim e pensaram: “O que faz aqui este crente?”, pois algo intrigava, não batia, e ficou ainda mais desconcertante quando notaram que tipos como Nietzsche, Camus, Lord Byron, Shakespeare e Neruda frequentam meu imprevisível jardim, de maneira que ao passar por ele, mesmo sem consciência, deixa-se algo e leva-se consigo outro algo encontrado.
Mas esta obra tão marcante dos anos 1980 não é conhecida pela forma inteligentemente incomum que trata acerca de uma obviedade sobre o tema da diversidade, e sim pelo que o autor conta logo na abertura sobre o que aprendeu para “saber sobre como viver, o que fazer, e como ser”, não “no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal” (p. 7):
Dividir tudo com os companheiros.
Jogar conforme as regras do jogo.
Não bater em ninguém.
Guardar os brinquedos onde os encontrava.
Arrumar a “bagunça” que eu mesmo fazia.
Não tocar no que não era meu.
Pedir desculpas, se machucava alguém.
Lavar as mãos antes de comer.
Apertar a descarga da privada.
Biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde.
Fazer de tudo um pouco – estudar, pensar e desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.
Tirar uma soneca todas as tardes.
Ao sair pelo mundo, cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e sempre “de olho” na professora.
Então pensei em uma despedida de um profissional que me marcou, lá pelos idos de 2014. Entre anedotas que contou sobre as inúmeras tentativas que fracassaram para pronunciar corretamente seu sobrenome, após quase quatro décadas à frente do RH, o senhor Wójcik se despediu dos colegas citando que o único diploma realmente importante em sua vida foi obtido em uma instituição com um nome igualmente desafiador para a pronúncia, o que se tornou profético por contrastar em seguida com o narcisismo de um jovem palestrante que parecia mais preocupado em falar sobre o próprio currículo do que abordar o tema do evento.
Um tempo depois perguntei àquele senhor amante de livros, sobre qual seria a instituição que mencionou naquela marcante despedida, quando então deu a velha risada de ironia fina e respondeu:
– Amorim, é a mesma do Robert Fulghum.
Tínhamos conversado sobre este livro havia pouco tempo em nossas habituais conversas de suporte pelo telefone e pelo Skype. Foi entre sorrisos e sob um tom de tristeza que um ciclo de relacionamento profissional se encerrava com um senhor que não precisava fazer uso de palavras para falar sobre ética, decência, respeito, assertividade, cultura, intelectualidade e humildade. Um homem cuja conduta falava com uma autoridade que nenhum discurso é capaz de dizer.
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2 Replies to “11/02/2026 20h00 Tudo que eu devia saber na vida aprendi no Jardim-de-Infância”