Imagem: Vaticano

“Eu tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de todas as pessoas, Deus está na vida de cada um. Mesmo que a vida da pessoa seja um desastre, destruída por vícios, por drogas ou por qualquer outra coisa, Deus está em sua vida. […]”
Obra: Papa Francisco: Esperança. A Autobiografia. 11. Como o ramo da amendoeira. Fontanar, 2025, São Paulo. Tradução de Frederico Carotti, Iara Machado Pinheiro e Karina Jannini. De Papa Francesco, Franciscus (2013-2025), Jorge Mario Bergoglio (Argentina/Buenos Aires, 1936-2025), com Carlo Musso.
Este livro passou o dia entre os teclados de minha mesa e de vez em quando olhava para a foto de Francesco enquanto pensava na sabedoria que há em suas páginas.
Quando comecei a buscar Deus pela ordem natural, em vez da sobrenatural, passei a me relacionar melhor com o que Francesco afirma (p. 147). Por mais inóspito que seja o ambiente, por mais destruída que esteja uma vida, por mais amargura, desgosto e descrença, sempre haverá oportunidade para uma nova experiência com Deus, o que vai além dos sentimentos, das emoções; penso no momento que passei e depois escutei de muitos sobre o falar de Deus ao coração, independente das circunstâncias.
Quando Francesco afirma que Deus “não é um ansiolítico. Faz muito mais: nos oferece a esperança em uma vida nova. A pessoa não fica aprisionada no passado, qualquer que seja, mas começa a olhar o hoje de uma forma diferente” (p.147), então pensei: “um pouco de Adler com sabedoria budista”. O papa toca no problema de muitos que preferem viver cultivando ressentimentos, mágoas, frustrações, sentimentos de culpa, em vez de se voltar no aqui e agora para um recomeço.
Necessário é viver sob o paradigma de misericórdia divina, assim entendo quando Francesco menciona sobre seus “momentos mais sombrios” na trajetória de vida, quando sentiu que o Senhor não o abandonou, o que remete ao significado do termo “misericórdia” (p. 145), bem como chama a atenção sobre quem “procura soluções disciplinares , que tendem de modo exagerado à ‘segurança’ doutrinal”, para “recuperar o passado perdido”, sob uma “visão estática e involutiva”, o que pode tornar a fé uma ideologia, em vez de uma experiência viva (p. 147). Aqui penso também em uma certa arrogância dos que assim procedem, sob o apelo do “zelo” que se afasta do espírito de amor e misericórdia, como se a fé fosse uma mera instituição social passiva de intervenções e regulações.
“Eu me lembro de meus pecados e me envergonho deles” (p.145), afirma, mas nessa experiência introspectiva, o Senhor não o deixa sozinho, completa, e assim o papa Francesco se apresentou aos detentos da prisão de Palmasola, na Bolívia: “o que vocês estão vendo é um homem perdoado. Um homem que é e foi salvo de seus muitos pecados” (p. 146).
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