Imagem: University of Oxford

“Aterrar-se é uma estratégia de mudança intencional na consciência do corpo, o que, obviamente, nos liberta de nosso raciocínio.”
Obra: Mindfulness para a vida. Como integrar a atenção plena ao dia a dia de forma prática e duradoura. 8. Perspectiva. Alterando o ponto de vista. Aterrar-se. Artmed, 2026, Porto Alegre. Tradução de Pedro Augusto Machado Fernandes. De Willem Kuyken.
O budismo na sabedoria da “atenção plena” – enxergo aqui como filosofia para fins terapêuticos – tem sido muito importante nesta fase de minha vida. Comecei a notar em meados do ano passado que estava sob uma carga de desgaste emocional muito elevada. E pelo caminho de leituras recorri ao mindfulness. “Aterrar-se” desde então tem sido uma experiência de meu cotidiano.
Minha consciência intimamente ligada a meu corpo tem me poupado de desgastes desnecessários, filtrando o que realmente importa, sobretudo no ambiente profissional. Também tem sido um recurso fundamental na mudança em meu padrão alimentar que estou realizando. O Ph.D. Willem Kuyken trata neste trecho (p. 167) sobre a ideia de “voltar-se para o próprio corpo”, desenvolvida no capítulo 3 desta obra, conceito que apreciei também em obras budistas do monge Thic Nhat Hanh e da monja Coen, além do livro da neuropsicóloga dra. Karina Santana [594]. O escaneamento corporal funciona de forma semelhante ao zoom de uma lente de câmera onde minha consciência verifica cada setor de meu organismo de forma específica ou abrangente.
“Toda a nossa experiência começa com os sentidos” (p. 98). Quando comecei a sondar pela “atenção plena” o que está acontecendo com o meu corpo, descobri coisas muito interessantes. A técnica terapêutica me permitiu conhecer melhor minhas sensações em determinadas circunstâncias, colocando-as em perspectiva (pp. 168-169). A aplicação ocorre quando faço paradas estratégicas ao longo do dia. Normalmente antes da abertura do expediente, eventualmente em algum tempo que sobra entre um atendimento finalizado e o próximo, quando vou ler, orar e me recolher para dormir.
A primeira descoberta dos benefícios do escaneamento corporal se deu quando passei a “escutar” minha pulsação e ver que variava bruscamente, estando acelerada sobretudo após alguma jornada mais intensa ou ser exposto a algum desgaste emocional ou ao consumir determinado alimento. Ao procurar acompanhamento médico no início deste ano, descobri que precisava controlar minha pressão arterial. Em seis meses de tratamento medicamentoso – uma vez hipertenso, sempre hipertenso, assim cantou o cardiologista – ela voltou aos níveis de normalidade. Nesse ínterim descobri também efeitos que certos alimentos causam na harmonia funcional de meu corpo: café, refrigerante, processados em geral. Cortei todos. Reduzi bastante leite, derivados, carne, doces, salgados. A descoberta desses efeitos se deram quando, ao consumi-los, em algumas ocasiões decidir aplicar a técnica e foi assim que comecei a ficar impressionado com o mal que estavam me causando. No entanto o efeito mais curioso – e inédito em minha vida – ocorreu quando, ao me oferecerem os alimentos que citei, percebi que minha mente passou a recusá-los ou a dosá-los em alguns casos, como se estivesse me regendo em sincronismo com o que meu corpo responde. Penso aqui na hipótese do efeito que o mindfulness causa na reatividade quando se desenvolve um cultivo de atitudes (Capítulo 7) e aplico a técnica da pausa para perceber sua eminência. Diante de um estímulo que excita meus sentidos, uma parada breve para respiração abre uma possibilidade de “responder de uma maneira diferente” (p. 190). Notei que, no caso da recusa total de certos alimentos, venho apresentando uma sensação similar à negativa natural que tenho em meu histórico, desde a adolescência, de não consumir bebida alcoólica e cigarro.
No trabalho de suporte, a parada estratégica tem sido importante em situações que sou estimulado a um imediatismo. Em outras palavras, tem me ajudado a evitar decisões por impulso, além de me auxiliar com clientes na organização do sequenciamento de tarefas, ajudando a neutralizar efeitos da ansiedade “viagem no tempo” (p. 169) mediante preocupação, quando se pensa demais em problemas futuros ou em expectativas, além da do que chamo de “síndrome da onipresença”, quando se tenta resolver várias coisas ao mesmo tempo.
Nada disso foi planejado. Deu-se espontaneamente no processo de leituras e experimentações da técnica quando me dei conta que estava me envolvendo com uma sabedoria que abriu um caminho para um novo estilo de alimentação que me inspirou a consumir muita verdura cozida, legumes e pescado, incluindo uma nova perspectiva sobre meus estresses diários.
594. 10/05/2026 15h21
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