Imagem: Al Jazeera

“[…] Hoje parece uma noção óbvia, mas alguns anos atrás não era, de modo algum.”
Obra: Quando o Mundo Dorme. Histórias, palavras e feridas da Palestina. Ingrid. Como combater o apartheid? Tabla, 2026, Rio de Janeiro. Tradução de Cláudia Tavares Alves. De Francesca Paola Albanese (Italia/Avelino/Ariano Irpino, 1977).
A jurista italiana e relatora especial das Nações Unidas se refere no trecho (p.121) ao conceito de “apartheid”, aplicado ao que acontece com os palestinos nas políticas segregacionistas adotadas por Israel.
O que a autora suscita me fez voltar a 2010, quando mencionei o conceito associado à questão palestina em um colóquio o qual fui convidado, e recebi críticas um tanto acirradas de um jovem alinhado com um grupo raro no meio universitário: de direita. Contudo, um dos argumentos não procedia: a de que eu tinha inventado de minha cabeça pois ninguém relevante tinha aplicado esse termo no caso palestino. Aparentemente quem criticou não conferiu a nota de rodapé do texto que produzi com menção à obra Palestine peace not apartheid [595], de nada mais nada menos que o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter (1924-2024). Na obra, ele alerta que se a política na Palestina não mudar em relação aos problemas sociais que provoca, o quadro será de um sistema de segregação semelhante ao que ocorrera na África do Sul.
A doutora Francesca Albanese apresenta um resumo das ilegítimas apropriações de terras pelo Estado de Israel (pp. 121-123) para então discorrer sobre a tese da holandesa especialista em Palestina e ativista pelos direitos dos palestinos, Ingrid Jaradat Gassner, em alusão ao muro construído em 2002, para manter distantes os palestinos de Jerusalém. além das medidas adotadas pelo Estado sionista na Cisjordânia, o que chamou a atenção da jurista Albanese que se tratava de uma questão “que realmente condiciona muitos aspectos da vida cotidiana” (p. 126). Em seguida, a autora conta um resumo do famoso boicote a produtos da África do Sul em 1984, iniciado na Irlanda, como fonte de inspiração para um movimento de boicote a Israel como forma de combater o ” apartheid”(p. 127-128). Aqui penso, medida bela e moral, mas tem um problema sério: Israel não é a África do Sul. O prestígio e a influência do Estado sionista são muito maiores no Ocidente em comparação com o país de onde se origina o conceito que o doutor Mandela dedicou a vida para combatê-lo.
O conceito então passou a ser aplicado em denúncias contra o Estado de Israel, feitas por ONGs israelenses, no sentido de que na Cisjordânia, “Israel aplica dois sistemas jurídicos distintos, um para os colonos israelenses, e outro para os palestinos” e que o aparato estatal israelense controla todo o espaço entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo para garantir a supremacia dos dos judeus israelenses sobre os palestinos (p. 129). De fato, são duas características de um regime segregacionista. E eis que em 2022 a Anistia Internacional reconheceu a aplicação do termo ao que Israel realiza sobre os palestinos (p. 130). A segregação, o impedimento a acesso a direitos fundamentais com o uso coercitivo de um aparato sobre um grupo para favorecer outro (p. 131), são fatos inegáveis que acontecem na Palestina, promovidos pelo Estado de Israel. Sobre isso, penso em grupos que se dizem “cristãos” que vivem exaltando o Estado de Israel e não se dão conta, ou não desejam dar, das graves violações cometidas por esse aparato que, sem dúvida, negam princípios fundamentais da fé cristã.
595. 30/12/2024 20h30
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