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“Em 10 de dezembro, muito cedo, Rachel e o coronel levaram Samuel à estação ferroviária. Rachel movia-se como sonâmbula, aturdida por uma dose excessiva de droga de Steiner.”
Obra: O Vento Sabe Meu Nome. O violinista. Bertrand Brasil, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de Ivone Benedetti. De Isabel Allende Llona (Peru/Lima, 1942).
O coração de Rachel está partido (p. 36). A angústia que vivera no primeiro capítulo se materializa cruelmente.
A senhora Adler aceitara a ideia de levar Samuel para ir sozinho a outro país, a Inglaterra, na operação humanitária pelo kindertransport após a trágica Noite dos Cristais. O marido em agonia no hospital (p. 28), fora deportado para um campo de concentração em Dacau (p. 31).
Rachel viveu o tipo de separação que corta juntas e medulas da alma de uma mãe, enquanto necessária para a sobrevivência do filho no contexto do genocídio que começava a tomar forma na Segunda Guerra. Não tentei imaginar a cena… senti uma cifra ao meditar no significado da decisão dela, cambaleante, em uma agonia profunda… Há decisões impreteríveis e tão dolorosas que a vida pode exigir… a separação forçada para preservar quem amamos… Ela não estava sozinha naquela ferida; havia uma “grande multidão de pais com seus filhos na estação […] crianças de todas as idades, inclusive algumas que mal andavam e eram levadas pelas mãos de outras um pouco maiores” (p. 37).
Mas o drama de Rachel era bem maior: na devastação de sua família, com o marido doente após ser espancado, o apartamento saqueado, imaginava as condições do doutor Adler prisioneiro em um campo de concentração e, vivendo na base de tranquilizantes, ela tenta se apegar ao último fio de esperança no meio do caos que a fazia processar dentro de si absurdos e foi assim que digeriu como “um episódio insignificante na trágica realidade que estava vivendo fazia muitos meses (p. 33)” se submeter à satisfação de prazeres sexuais do cônsul chileno para obter vistos de emigração que livrariam sua família das garras do nazismo.
No embarque não queriam deixar que Samuel, com seus dotes musicais, portasse o violino; apenas uma mala para cada passageiro mirim, por conta da falta de espaço nos vagões. mas o menino tocou Schubert e comoveu a quem o escutou e o impedia.
Restou o abraço de despedida de Rachel e a partida do trem, marcando o fim da infância de Samuel aos cinco anos (p. 38).
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